A PEQUENA SEREIA E A ABELHINHA
Era uma vez uma pequena sereia que vivia no fundo do mar, em companhia das suas irmãs mais velhas, onde as ouvia contar muitas histórias antigas, em que as sereias hipnotizavam os homens com o seu mavioso canto, os quais nunca mais voltavam para casa; ficavam para sempre nos seus barcos à espera do canto das sereias, quando não eram levados por elas para as profundezas do mar.A Pequena Sereia começou a ficar enfadada com as mesmas histórias: o que ela queria era ir a terra e brincar com uma menina, porque as suas irmãs só falavam de coisas de sereias crescidas e um dia tinha escutado uma conversa secreta, em que falavam de meninas, com duas pernas em vez de cauda de peixe.Um dia, quando as irmãs estavam distraídas a preparar uma festa, a Pequena Sereia atreveu-se a subir à superfície do mar, lugar muito perigoso, onde há barcos e homens que tudo pescam com umas grandes redes, e aí ficam presos peixes, golfinhos e até sereias, atravessem-se elas a lá ir. Mas a Pequena Sereia pensou: vou ter muito cuidado e assim que observar algo de estranho volto imediatamente para as profundezas do mar. Não quero ficar prisioneira dos homens. E assim fez. Um dia, observou que havia muitos peixes, de todas as qualidades e tamanhos, a debaterem-se para se libertarem das redes, mas não o conseguiram. Ainda pensou em prestar-lhes ajuda, mas que poderia fazer uma pequena sereia? E voltou, triste, para as profundezas, onde se sentia tão sozinha e desanimada. Mas não desistiu: iria observar as águas uma vez e outra até conseguir emergir em segurança. Foi o que aconteceu: num belo fim de tarde, chegou à praia, mas deu-se conta de que a única menina que estava na praia estava prestes a ir embora, pela mão do papá e da mamã, que a levantavam no ar de vez em quando, rindo, rindo e a pousavam novamente no chão. A Pequena Sereia ficou ali olhar, melancólica ... até que o trio já ia tão longe e ficaram tão pequeninos … e a menina, ainda mais pequenina, deixou de se ver. Oh, como gostaria de brincar à beira-mar com uma menina com uns caracóis dourados como aquela !... a menina poderia correr na areia, enquanto ela correria a seu lado, na água, e talvez até pudessem nadar juntas ou, simplesmente, chapinhar, divertidas. O sol lançava já os seus longos cabelos dourados sobre a praia, o mar avermelhava, como se lhe tivessem deitado um frasco de tinta vermelha, e a Pequena Sereia, com receio de não encontrar o caminho para casa no fundo do mar, mergulhou e nadou, nadou ...As irmãs felizmente não tinham dado pela sua falta, tão azafamadas estavam. Quantas vezes ainda teria que fazer aquela viagem para encontrar uma menina com quem brincar!
No dia seguinte madrugou e antes da grande festa foi fazer uma nova visita àquela praia, na esperança de lá encontrar a mesma menina, ou outra, mas encontrou-a ainda deserta.
Sentou-se, cautelosamente,
por detrás de uma rocha, a observar as pessoas que chegavam. Bem, havia meninos
e meninas que chegavam com os seus papás, mas não lhes tiravam o olho de cima,
nem por um minuto.
_ Oh, assim
nunca poderei brincar com uma menina, saber como é a vida nesta parte seca do
planeta. E ficou triste por momentos, mas eis que uma pequena coisa voadora,
fazendo um zumbido quase inaudível, pousou
na rocha, um pouco mais abaixo, e ali ficou, agitando um dos dois pares de asas de vez em quando, mas como que observando
o mar.
A Pequena
Sereia, por curiosidade, aproximou-se do insecto que vestia o que parecia uma
camisola fofinha listrada de amarelo e castanho escuro e perguntou, quem és tu?
A abelhinha,
porque era de uma abelha que se tratava, apesar dos seus cinco olhos, dois à
frente e três no topo da cabeça, assustou-se e quis levantar voo, mas a pequena
sereia disse: Não te vás embora; preciso tanto falar com alguém diferente de
uma sereia ...
A abelhinha,
num curto voo, observou a Pequena Sereia, arriscou-se a pousar, primeiro as
quatro patinhas de trás e só depois as duas da frente. Também ela gostaria de
falar com quem não fosse abelha e disse: Sou uma abelha: trabalho de
manhã à noite. Sigo ordens rigorosas, por isso também fico contente
por encontrar com quem falar e que não seja uma abelha.
A Pequena
Sereia ficou muito admirada: Tu trabalhas!? Que trabalho é que um ser tão
pequeno como tu, pode fazer?
_ Construo
favos, conjuntamente com toda a colmeia, para armazenar mel para alimentar a
rainha; contribuo com cerca de cinco gramas todos os dias. Temos que trabalhar com
muita rapidez, para encontrarmos pólen e néctar numas dez flores por minuto.
Raramente podemos dispôr de escassos segundos para termos o prazer de deslizar
pelo cálice de uma flor. Muitas abelhas não chegam a desfrutar uma única vez desse
prazer em toda a sua vida.
_Oh … deve ser uma vida muito dura …
_Sim, mas também é doce e bela …
_E que estás aqui a
fazer, à beira mar?
_Vês aquela serra lá
muito longe, ao fundo? É onde está a minha colmeia … a minha casa … as flores …
e donde vejo o mar.
_E quiseste ver de perto
o que vês de longe, não foi? Eu gostava de lá ir … parece bonito … mas não
posso estar fora de água muito tempo …
_ Se quiseres ir … isso
remedeia-se …
_Mas como é que chegaste
aqui, se é tão longe do mar …
_Como disseste, é muito
longe, especialmente para uma abelha, mas servi-me de um curso de água para cá
chegar. Podia ter utilizado o vento, que hoje tem soprado do norte, mas isso
seria muito radical, além de que o vento é um elemento da natureza muito
volúvel, em que não se pode confiar. Só os entendidos.
_Estou curiosa! Diz-me
como é que chegaste aqui.
_Aquela serra tem uma
nascente que alimenta uma ribeira que vem desaguar aqui ao mar …
_ Mas tu não podes nadar
com as asas, pois não?
_Pois não, por isso
servi-me de diversos expedientes: escondi-me num ramo de flores silvestres que
uma rapariga foi apanhar lá muito perto das colmeias e assim desci até à ribeira;
quando pousou o cesto, onde ficou a fazer um pic nic, eu aproveitei para voar e pousar num ramo de
salgueiro, que por ali vinha vogando, e em folhas que iam sendo arrancadas das árvores
fustigadas pela forte ventania e a cada momento caíam na água. Quando alguma
ficava retida por caniços, por folhas maiores ou por pedras, bastava-me fazer
um pequeno voo, encontrar uma outra que estivesse a deslizar na altura e por
entre momentos bons e outros mais complexos aqui estou, realizando o desejo que
tinha.
_E sentes-te feliz por
isso?
_Bem, agora que aqui
estou, vejo que não é um sítio indicado para uma abelha; não iria aguentar
muito tempo o marulhar contínuo do mar … os salpicos salgados das ondas … as flores
raquíticas … as gaivotas barulhentas e talvez fosse comida por uma … não sei … Na
serra o silêncio é cortado pelo cantar de pássaros diversos, as flores são visitadas
por uma infinidade de insectos e duma multiplicidade de silenciosas borboletas
multicores. No verão é que há muito ruído: as cigarras cantam, incansáveis, e
tão alto que chegam a atingir os cem decibéis e os grilos, com o seu
inconfundível canto, que produzem com as asas para atrair as fêmeas …
_Já percebi como vieste e
como é a serra; agora podes levar-me ver a tua colmeia …
_Hoje posso. E também por
essa única razão é que consegui sair do ritmo austero em que as abelhas vivem.
É que morreu a Rainha, a responsável pela reprodução dos ovos, que chegam a ser
mil por dia e a nova rainha só nascerá amanhã, por isso a colmeia está um caos,
e entre umas cinquenta mil abelhas ninguém dará pela minha falta, o que não
acontecerá a partir de amanhã, em que tudo volta à antiga e rígida ordem, a
menos que a mesma seja destruída neste curto espaço de tempo. por outros
insectos que “sentem” a desordem e aproveitam para roubar. Portanto o que vais
ver não será o usual … e corres o risco de ser atacada … pensando bem … não é
boa altura …
_ Estou a perceber … mas tenho uma ideia: vou contigo pela ribeira
acima, deposito-te lá … e numa próxima oportunidade vou visitar-te …
_Combinado. Mas olha que
não vou poder dar-te qualquer atenção …
_E daí, quem sabe? Há sempre
tantas surpresas!
Depois de deixar a abelhinha nas proximidades da serra, a Pequena Sereia, assim que se encontrou de novo na foz da ribeira, procurou o mar mais profundo, mergulhou e chegou às profundezas, onde a festa estava a terminar e as irmãs já andavam à sua procura, mas assim que a viram ficaram tão contentes que se esqueceram de se zangar com ela.
No dia seguinte só
falavam da festa e das histórias de costume. E foi aí que a Pequena Sereia disse
que queria contar uma história.
_Que história é que uma
pequena sereia como tu, teria para contar? Vai lá brincar …
_Mas eu quero contar uma
história!
_Pronto, está bem; mas
olha que temos mais que fazer!
A Pequena Sereia contou que
tinha visto uma praia, uma menina de lindos
caracóis, conversado com uma abelha e percorrido uma ribeira, mas as irmãs, que
só conheciam os homens que encantavam com o seu canto traiçoeiro, não
acreditaram em nada e disseram:
_Tiveste um sonho muito
engraçado! Agora vai lá mas é brincar …