sábado, 12 de dezembro de 2020

 

O SENHOR DIAS

O senhor Dias tem mais de oitenta anos. O senhor Dias é uma pessoa muito conceituada na terra. O senhor Dias é um filantropo: ama tanto os animais, como as plantas e as pessoas. O senhor Dias é uma pessoa adorável: simpático, afectuoso, prestável e muito delicado e respeitador. Tem sempre uma palavra amiga para quem dela carece e para quem não carece. É uma das figuras principais da terra desde tempos imemoriais: ele era o correio, ele o banco, ele era o táxi, ele era o embalador, ele era o conselheiro em questões legais. Agora na terra há tudo isso, mas ele parece ignorá-lo e continua a prestar serviços a quem o procura. Ficou viúvo há mais de vinte anos, não se sabendo se deu por tal, já que tudo continuou quase na mesma: vive no escritório onde recebe quem precisa, o que por vezes não é mais do que um dedo de conversa para esquecer a solidão, coisa que o senhor Dias ignora por viver sempre rodeado de gente que o estima. Não se sabe se o senhor Dias se lembra de que tem um filho que não vê desde que a mãe morreu e foi viver para uma propriedade que a falecida herdara por morte dos pais e de que talvez nem se lembre. Aí, o filho tornou-se criador de cães de raça e abomina os humanos, com quem apenas contacta, só e apenas, para fins comerciais.

Uma noite o senhor Dias teve um sonho ou aconteceu outra coisa qualquer que permitiu que toda a gente da terra tivesse acesso ao seu verdadeiro eu, àquele que todos escondem dos outros, que é o que toda a gente faz, pois de contrário a vivência seria quase impossível ou pelo menos improvável.

 

Era entrar como no cinema ou pelo menos numa exposição animada, em que o lado “invisível e obscuro” do senhor Dias era “visto” por todos, desde a idade dos vinte anos, já que até aí não havia nada de invulgar e de reprovador, apenas os mágicos sonhos e traquinices de criança e o desejo adolescente de ter para si todas as raparigas que pudesse. Foi a partir daí, desde que um colega lhe roubara aquela que ele mais cobiçava que o seu oculto lado começou a ficar sinistro, repleto de desejos de morte ao outro e pensamentos de vingança. Se foi um começo, ou se de qualquer modo se tornaria assim, não se pode afiançar, nem mesmo ele, que umas vezes “conhece” e abomina tais propósitos e outras vezes maquina na maneira astuciosa de os pôr em prática, chegando mesmo a factos, apesar de algumas vezes se arrepender e outras não concretizar, por impossibilidade física ou social, mas sobre as quais não deixa de remoer, quantas vezes enquanto sorri e cumprimenta, levantando levemente o chapéu, que nos últimos anos já não usa, mas de que lhe ficou o gesto, não fosse a inclinação da cabeça se poderia confundir com uma continência.

Toda a população teve conhecimento da referida exposição que abarcava os “negros” do senhor Dias dos últimos mais de sessenta anos, desconhecendo, porém, que se tratava dos “abismos” de tão distinto cavalheiro. Quem quisesse saber a identidade de tal besta teria de visitar a exposição durante meses a fio e talvez anos. Quem o fazia por mera curiosidade de ver o lado negro de alguém, duas coisas podiam acontecer: saía de lá agoniado pela sordidez ou um pouco reconfortado por haver outro alguém igualmente promíscuo e desalmado.

À medida que as semanas passavam, as pessoas mais comentavam tal carácter, que não acreditavam caber na totalidade numa única pessoa.

Um amigo do senhor Dias, mais ocioso, que nada tinha para fazer a não ser cavaquear com ele, passou a visitá-lo menos no escritório, parecendo pouco à vontade, e começou a passar mais tempo na exposição, de tal modo estava interessado em conhecer a identidade do indivíduo, com o qual se identificava em diversas situações, de modo que chegou a ter medo de que fosse ele mesmo, se bem que havia algumas que nunca lhe teriam passado pela cabeça, não que fosse melhor pessoa do que aquela que via retratada, mas simplesmente  uma ou outra situação não se lhe tinha deparado na sua vida, que as coisas são assim mesmo; os sentimentos, emoções e reações originam-se mercê das circunstâncias.

As pessoas pareciam precisar cada vez menos do auxílio do senhor Dias, não que lhes passasse pela cabeça que a exposição estava relacionada com ele, mas porque começaram a andar mais metidas consigo mesmas, sentindo-se umas vezes mal quando não procediam bem embora ninguém o soubesse a não ser as próprias, outras vezes avaliando se poderiam ser vítimas de tais maquinações.

O senhor Dias começou a ficar cada vez mais só, ele que desconhecia a palavra solidão, a quem tinha votado a mulher e, quiçá, o filho. Um dia, depois de ninguém, mas ninguém mesmo, ter aparecido no escritório, nem mesmo o seu mais antigo amigo, lembrou-se da sua mulher, depois lembrou-se de que esta morrido, de que tinha sido bonita, mas não tão bonita como a outra, aquela que o amigo lhe tinha “roubado” sem que disso tivesse tido consciência, já que ele na altura o que queria era tê-las todas, como se fosse um sultão com o seu harém. O amigo procedera como um rapaz que quer casar, enquanto ele só queria namorar. Todas.

Enquanto isto, passara quase um ano de contínua exposição, cada vez mais frequentada e o amigo estava prestes a chegar ao fim, onde finalmente seria revelado o nome do abominável.

Na noite desse dia, o senhor Dias que dormira sempre tão bem depois de cada dia tão preenchido e que não conhecera uma única insónia, espécie pela qual nunca se interessara, talvez por isso mesmo, e porque os oitenta já estavam muito avançados, foi ela, a própria insónia, que se interessou por ele, flagelando-o impiedosamente noite fora, durante a qual se lembrou de que tivera um filho. Um filho que ele empurrava: fica aí com a tua mãe que eu tenho muito que fazer.

E não é que o senhor Dias chorou?! Quando é que tinha chorado? Nem quando o amigo lhe “roubara” a moça! Não chorou. Amaldiçoou-os, a ambos. E outras coisas terríveis. Mas chorar … só uma vez, em miúdo, quando esfolou os joelhos e rasgou as calças novas e não podia aparecer naquele estado às miúdas que esperavam por ele à porta da igreja. Não para casar, claro. Enfim, outras coisas.

Os mais persistentes na frequência da continuação da exposição continuavam intrigados com aquela personagem odiosa, se não mesmo repugnante, algumas vezes.

No dia seguinte o senhor Dias não se levantou. Ninguém bateu à porta do escritório. Ninguém precisava dele. Nem a mulher. Nem o filho tampouco.

O amigo chegara ao fim da exposição. O nome que surgiu no grande ecrã era o do seu amigo. O do senhor Dias.

À saída tiveram de ampará-lo. Seria da fraqueza, diziam, já que cada vez mais ele passava dias inteiros na exposição, e agora murmurava: o Dias, o Dias. Trouxeram-lhe água com açúcar. O Dias, o Dias, continuava ele, sem acreditar que o seu mais antigo amigo fosse aquele monstro. Aquele monstro que lhe tinha feito, a ele, aquelas coisas e, pior do que isso, o que ele lhe desejara todos estes anos: que morresse, para finalmente lhe ficar com a mulher. Iria ter com ele, para o desfazer. E talvez não precisasse. Quando todos soubessem que ele era aquele … não precisaria mover uma palha.

Quando o viram recuperado e souberam que tinha chegado ao final da exposição, a pergunta surgiu, impaciente, na boca de todos: quem é o malvado. À resposta já conhecida, todos os maxilares se descaíram de espanto e de incredibilidade. Como não podiam ver por si mesmos sem que tivessem feito o percurso total da exposição e não estavam dispostos a esperar para o verem com os próprios olhos, disseram: o que está a dizer é impossível, não sabemos por que diz tal mentira, é uma grande maldade fazer isso ao senhor Dias, nunca conhecemos ninguém como ele! Ao que o amigo do senhor Dias contrapôs: também eu não o supunha, até ter visto o nome, em letras bem grandes, por sinal. Escutou em resposta: se nos está a enganar, pode crer que todos juntos faremos de si um picadinho e não vai haver lei que nos possa incriminar, somos muito e não perdoamos a quem, injustamente, quebre as pernas do nosso ídolo de carne e osso.

Dispostos a pôr em pratos limpos o que lhes parecia uma calúnia, dirigiram-se, em magote cada vez mais grosso, ao escritório do senhor Dias, que encontraram fechado, facto inédito. Bateram, primeiro com educação, que se foi tornando violência com o passar dos minutos e cuja porta não resistiu à pressão da populaça que queria ver esclarecido aquele equívoco e que ele, senhor Dias, iria clarificar para que todos saíssem dali aliviados. Não seria bem assim, porque tinham prometido fazer picadinho do outro. Em contrapartida, se não o fizessem não ficariam bem vistos aos olhos uns dos outros: além de faltarem à palavra seria como uma traição ao senhor Dias, que não o merecia. Iriam, porém, continuar intrigados até que mais alguém conseguisse concluir a extensa exposição e aí, sim, o nome que surgisse seria o do verdadeiro perverso, e não o do admirável e benfazejo senhor Dias.

Quando a porta se escancarou, encontraram o inesperado: o senhor Dias inerte, hirto e frio.

A multidão precisava que o senhor Dias a aconselhasse numa hora daquelas. Estavam num dilema. Desamparados, como ovelhas abandonadas à sorte, começaram a dispersar, a ir às suas vidas, num entorpecimento quotidiano.

Os funerais naquela terra costumavam ser divertidas reuniões.

Não foi o caso. Nunca se viu um funeral tão lúgubre, tão pesaroso, tão tristonho: em suma, tão fúnebre, não tanto pelo senhor Dias, que já pouca ou nenhuma falta lhes fazia, mas que, porém, os obrigava a pensar no lado obscuro de cada ser humano. Se era ou não verdade o que o amigo tinha dito, já pouco ou nada interessava: a exposição foi desmantelada. Deixara de fazer sentido.

O amigo, esse, não parecia o mesmo: o que dizia à mulher não fazia sentido para ela e cuidou que fosse por ter ficado perturbado com a morte do amigo de sempre. As pessoas da terra quando o encontravam não era bem a ele que viam: como há em tudo dualidade, umas entreviam o senhor Dias; outras viam-se a si mesmas, àquilo que a morte do senhor Dias fizera delas. E baixavam a cabeça, incapazes de compreenderem, num misto de melancolia e sequidão, o que eram, afinal, as suas vidas.

 

 

Paderne, 2 de Dezembro de 2020


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

 

É Natal

Porque chove!

 

As gentes estão contentes

Porque chove!

 

É preciso dizer tudo de novo

Porque chove!

 

É primavera nas almas

Porque chove!

 

Há um salmo no ar

Porque chove!

 

Há encantos e murmúrios

E segredos inocentes

Porque chove!

 

Há odores delicados

E magia palpitante

Porque chove!

 

Um verso de poeta

Uma rima de poesia

Porque chove!

 

Um milagre

Uma esperança

Porque chove!

 

E o arco-iris pintou o céu

Mudou as cores da terra

Saciou a veia da natureza

 

A chuva é o sol da vida

Raíz da floração!