sexta-feira, 29 de abril de 2022

 

SILÊNCIO E LUZ

 

Silêncio e luz;

Depois de um grito de cigarra

O galopar das nuvens

O perfume das plantas campestres

O pincel molhado do pintor

A superfície polida de um lago

 

Quem escutará este silêncio?

Quem guardará esta luz?

 

Triângulos de terra vermelha

A felicidade na memória dos lírios

A surpresa de um mundo que recomeça

Em vidas consumidas como brasas

 

É tempo de regresso

A chave na fechadura

As mãos nas algibeiras

 

E a noite cai, absoluta

Entre sonhos invisíveis

Como morte embriagada

 

26.04.2022

segunda-feira, 18 de abril de 2022

 NUNCA FUI NINGUÉM

Não fui à guerra
Não defendi grandes causas
Não matei ninguém para livrar a humanidade de males maiores
Não salvei ninguém de holocaustos,
Nem sequer de se afogar ou de ser atropelado por um camião
Nem ao menos resgatei um cão da vadiagem ou da fome
Não orientei um cego nem aliviei um coxo
Não doei sangue nem medula óssea, muito menos um rim ou o coração
Não fui bombeiro, nem enfermeiro nem defendi inocentes
Não protegi espécies em extinção
Não dei prazer a qualquer mulher. Nem a homem sequer.
Não fiz milagres nem descobri remédios miraculosos
Não fiz rir, e talvez, nem chorar
Não pintei belos quadros nem escrevi bestsellers
Não compûs sonatas nem cantei operetas
Não construí nem destruí cidades
Não fui banqueiro nem ladrão
Quem fui eu, afinal?
Ninguém!
Como tanta gente!