sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A praia estava deserta

Surgiste, figura escurecida
Contra o sol recém-nascido.
O mar recuara 
Para te deixar passar 
Num passo seguro e determinado
Como o dos autómatos

 É fácil seguir um caminho já traçado;
 Passaste
 Nem me olhaste

A praia ficou mais deserta

Na manhã seguinte
Lá estava a praia  
Mais deserta que nunca 
Porque tu não estavas   

As gaivotas regateavam os moluscos
Que a maré baixa deixara

Mas a praia estava tão deserta 

O verão chegou
Milhares de veraneantes 
Ululavam pela praia
Que continuava deserta 
Porque tu não estavas

Que feitiço foi esse
Se nem sequer me olhaste

Deixaste-me tão deserta
Como a praia
Num dia de vendaval
Em que nem pairam gaivotas 

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Viste o mundo mudar
Desde a pedra forjar
Ao drone a voar

E não mudaste nada

Não vês o olhar suplicante
De uma criança

O olhar desesperado
De uma mulher

O olhar, doce
Ou assustado
De um animal

Tens olhos
Não és cego
Todavia não vês

Tens coração e não sentes
Tens cérebro e nada sabes
Pensando tanto saber

Não mudaste nada

Apesar de teres mudado o mundo
Precisas de olhos que vejam
Coração que sinta

Deixa que outros continuem a mudar mundos
Quando sabes que podes mudar
Tudo o que os outros não querem mudar

Porque eles querem
Crianças tristes
Que fingem consolar
Mulheres desesperadas
Que fingem apoiar
Animais doces ou assustados
Que fingem proteger

Eles não precisam que finjas
Eles sabem que só tu
Podes mudar
O que eles não podem
Ou não querem

Muda, homem!
Muda!

Abre a janela da prisão
Onde também te tornaste prisioneiro
Embora penses que não!

Abre a janela!
Não tenhas medo
Atira-o daí mesmo!
Esse medo que transportas
Junto com a pedra
Que trouxeste contigo
Desde o princípio dos tempos!

Não faças dela mais esculturas do medo
Atira-a pela janela
Não fiques a olhar para ela
Que te lançará o seu poder de atracção.

Deixa que ela transporte o teu medo
E liberta-te, já,
Dos seus milenares grilhões
E muda, homem!
Muda!


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Tudo Perdeu
Tal como queria
Nada deixar

Não foi o fogo ancestral
Não foi a água diluviana
Não foi um ciclone

Foi o universo
Pelo moderno meio digital

Um computador
Um disco externo
Palavras incompreensíveis
Para as nossas avós

Que nunca perderiam
Momentos e fotografias
Que guardavam na memória
Aquela caixinha sempre pronta
Que levavam com elas para toda a parte

Não a deixavam de herança:
Antes a tinham partilhado.
E levaram-na consigo
Para todo o sempre!