sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
UMA
DOR NO BRAÇO
É com espanto que Judite escuta um poema de Ruy Belo,
intitulado “ Tu estás aqui” e as palavras doi-me o braço fazem-na pensar
se será no esquerdo ou no direito, e mais à frente ouve: esta dor no braço que
afecta tudo o que faço. Se for naquele com que escreve, deve ser um drama.
O espanto de Judite não tem tanto a ver com a dor do
braço do poeta, mas com a dor do seu braço; é o esquerdo e afecta quase tudo o que faz: acender o fogão, cortar o pão, pegar nas
panelas, acender luzes; alcançar um copo ou qualquer objecto ou alimento dos
armários, tomar banho, secar o cabelo, abotoar algumas peças de roupa, espremer
a esponja extensível de lavar o chão, abrir determinadas gavetas, vestir um
casaco e tantas coisas mais como conduzir, colocar o cinto de segurança mesmo
quando não é a própria a conduzir, dormir sobre esse braço, voltar-se na cama,
apoiar-se para se levantar, enfim, afecta tudo ou quase tudo quanto faz ou
pretende fazer e isto é apenas o trivial, porque se quiser fazer rapel para
desfrutar de determinada atividade é-lhe totalmente interdito.
De visita à Caravela Boa Esperança teve imensa
dificuldade na descida ao porão e ainda mais na subida, que tinha que fazer mais força ao agarrar as
cordas e impulsionar-se para cima, já que também o joelho direito não ajudava
muito.
Nunca lhe tinha passado pela cabeça que estas
corriqueiras e incómodas maleitas poderiam constar dum poema e acaba por
constatar que este tem muito em comum com sua história cotidiana além da dor
no braço que afecta as respectivas vidas.
Sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. Também Judite; apenas não o saberia expressar tão
bem.
Corpo castigado. Tal como o seu; acossado pela dor; por vezes uma
única, geral, imensa, que a faz sentir-se “tão indefesa diante dos dias”.
Volta a ouvir o poema; também Judite lá fora é outra
coisa, não se queixa de dor no braço nem da outra maior, una. Lá fora sorri.
Como pode um poema de outra pessoa narrar “bocados” de
nós; talvez todos a certa altura sintamos as mesmas coisas, apenas nem todos o
confessem, como eles. Judite e Ruy Belo.
Ele expressa-o, mas o poeta é um fingidor …
2018 (??)
TU ESTÁS AQUI
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que
sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um
pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos
desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social
só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e
escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui
sentado dentro de casa sou
outra
coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só
tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o
que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a
casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o
que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo
castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas
estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a
outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra
do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto
noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou
dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me
deram outro nome
que
não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para
distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse
também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os
teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que
significam certas palavras como
a
palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na
face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço
por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer
sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
https://www.youtube.com/watch?v=Jh-fK-DNIgM