quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

 

UMA DOR NO BRAÇO

É com espanto que Judite escuta um poema de Ruy Belo, intitulado “ Tu estás aqui” e as palavras doi-me o braço fazem-na pensar se será no esquerdo ou no direito, e mais à frente ouve: esta dor no braço que afecta tudo o que faço. Se for naquele com que escreve, deve ser um drama.

O espanto de Judite não tem tanto a ver com a dor do braço do poeta, mas com a dor do seu braço; é o  esquerdo e afecta quase  tudo o que faz:  acender o fogão, cortar o pão, pegar nas panelas, acender luzes; alcançar um copo ou qualquer objecto ou alimento dos armários, tomar banho, secar o cabelo, abotoar algumas peças de roupa, espremer a esponja extensível de lavar o chão, abrir determinadas gavetas, vestir um casaco e tantas coisas mais como conduzir, colocar o cinto de segurança mesmo quando não é a própria a conduzir, dormir sobre esse braço, voltar-se na cama, apoiar-se para se levantar, enfim, afecta tudo ou quase tudo quanto faz ou pretende fazer e isto é apenas o trivial, porque se quiser fazer rapel para desfrutar de determinada atividade é-lhe totalmente interdito.

De visita à Caravela Boa Esperança teve imensa dificuldade na descida ao porão e ainda mais na subida,  que tinha que fazer mais força ao agarrar as cordas e impulsionar-se para cima, já que também o joelho direito não ajudava muito.

Nunca lhe tinha passado pela cabeça que estas corriqueiras e incómodas maleitas poderiam constar dum poema e acaba por constatar que este tem muito em comum com sua história cotidiana além da dor no braço que afecta as respectivas vidas.

Sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. Também Judite; apenas não o saberia expressar tão bem.

Corpo castigado. Tal como o seu; acossado pela dor; por vezes uma única, geral, imensa, que a faz sentir-se “tão indefesa diante dos dias”.

Volta a ouvir o poema; também Judite lá fora é outra coisa, não se queixa de dor no braço nem da outra maior, una. Lá fora sorri.

Como pode um poema de outra pessoa narrar “bocados” de nós; talvez todos a certa altura sintamos as mesmas coisas, apenas nem todos o confessem,  como eles. Judite e Ruy Belo. Ele expressa-o, mas o poeta é um fingidor …

2018 (??)

 

TU ESTÁS AQUI

Estás aqui comigo à sombra do sol

escrevo e oiço certos ruídos domésticos

e a luz chega-me humildemente pela janela

e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou

Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano

e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama

que uso para ser também isto este bicho

de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos

quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem

                                                                                                    o que sei o

que faço ou então sou eu que julgo que o sabem

e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras

e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou

                                                                                                  outra coisa

esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior

a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço

bem entendido o que faço com este braço

Estás aqui comigo e à volta são as paredes

e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa

e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho

e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado

passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes

esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa

essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol

Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso

diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome

este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro

nome embora no mesmo nome este nome

de terra de dor de paredes este nome doméstico

Afinal fui isto nada mais do que isto

as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto

a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome

                                                                                        que não merda

e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das

                                                                                        outras coisas

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto

pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa

uma coisa para além disto que não isto

Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo

é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos

mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos

tu és em cada gesto todos os teus gestos

e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como

                                                                                                   a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas

perdoa pagares tão alto preço por estar aqui

perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui

prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente

deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias

e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer

sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

 

https://www.youtube.com/watch?v=Jh-fK-DNIgM

 

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