quinta-feira, 15 de abril de 2021

 JANTAR DE NATAL

O jantar de Natal aparentava-se mais com a primeira refeição em família após o enterro de parente próximo do que a comemoração do nascimento do filho do Criador.
O silêncio escorreria, plúmbeo, pelos rostos pálidos, estendia-se sobre a mesa e esculpia os espaços dos ausentes. Mastigando, devagar e enfados, escutavam ainda o eco da voz daqueles que no Natal anterior se tinham sentado àquela mesa, rido, contado histórias e saboreado com deleite cada nova iguaria que ia surgindo, cada vez que alguém aspirava o perfume exalante das terrinas.
Quase não se permitiam fazer qualquer gesto que fizesse tinir os talheres que, muito sorrateiros, afloravam o prato. Os copos eram coniventes com os talheres e com o silêncio e não se atreviam a provocar a habitual vibração em data festiva. As palavras tinham-se ausentado, fatigadas. Um talher, estremecendo, caiu ao chão como um trovão que ninguém se atreveu a escutar. Frustrado na sua tentativa, regressou à mesa, escutando o silêncio ameaçador que já escorria pelos quadros encaixilhados. A canja parecia ter azedado, o peru emagrecido, as filhoses mirrado e o vinho, esse, entornado. Vinho entornado! Sinal de alegria ali tão descabido! Já reinaste, vinho, noutros Natais, aniversários, Páscoa e que mais. Hoje não é o teu dia. O Natal aqui não esteve. Foi aí que o Paulo deitou ao chão o copo já despido de silêncio. Peço desculpa, o Natal não vem jantar. Talvez o encontremos na sala de estar. Vamos lá, então!

2016.11.12

segunda-feira, 12 de abril de 2021


LUISINHA APRENDE UMA HISTÓRIA

Luisinha tinha três anos, alegres e descuidados, e muitos livros de histórias que lhe iam oferecendo para ler quando chegasse a altura. Mas Luisinha gostava de fingir que sabia ler e andava sempre com os livros.
Numa tarde risonha e ensolarada, a mãe teve que sair precipitadamente após um telefonema inesperado e deixou-a, pela primeira vez, aos cuidados do irmão, um endiabrado rapazito de dez anos, assegurando que não iria demorar.
Assim que a mãe saiu, Luisinha escondeu-se atrás duma porta, como fazia às vezes a jogar às escondidas; desta vez tinha um livro de histórias na mão:” A Bela Adormecida”.
O irmão foi até à cozinha fazer um lanche porque estivesse com fome ou simplesmente como forma de entreter a pequena, que era muito glutona, antes que começasse a fazer diabruras na ausência da mãe. Quando foi buscar a irmã que julgava entretida com o livro, abriu a porta que separava as divisões com tanta velocidade que aquela embateu na cabeça de Luisinha que caiu com a pancada e por momentos desmaiou, sem largar o livro.
O rapaz, muito aflito, agarrou a menina e colocou-a no sofá, onde recuperou os sentidos quase de imediato, para grande alívio do irmão, e logo que despertou abriu o livro e contou-lhe toda a história, mas como se fosse a própria a vivenciá-la.
O irmão ficou um pouco admirado com a desenvoltura da pequena, mas pensou que a mãe lhe tivesse contado a história como se fosse ela mesma, Luisinha, A Bela Adormecida, e não pensou mais no assunto, aliviado pela chegada da mãe, que acabou por compor o lanche e todos se sentaram à mesa.
A menina, que ficara muito entusiasmada com a reacção do irmão, contou novamente a história à mãe como se fosse ela a protagonista. A mãe ficou muito contente com o filho por ter sabido cuidar tão bem da irmã na sua curta ausência e ainda ter-lhe contado aquela história duma maneira tão incrível que a menina além de a ter aprendido tão depressa ainda conseguia contá-la na primeira pessoa, coisa inaudita.
O rapaz logo se deu conta de que ali havia coisa e sentiu não merecer os elogios, mas não podia dizer que não o tinha feito e o que pensara da primeira vez que ouvira a irmã: teria que contar que, sem querer, lhe tinha batido com a porta na cabeça, que estava agarrada ao livro quando isso aconteceu, que desmaiou logo voltando a si e da maneira como lhe contara a história.
Preferiu guardar para si aquele acontecimento inacreditável, em que a mãe não iria mesmo acreditar e ainda ficaria preocupada com o desmaio e zangada com ele, por não ter tido mais cuidado.
Daí em diante, por vezes pensava repetir a façanha com um outro livro, mas não encontrava nenhum adequado. “Os três porquinhos”, “O patinho feio”, “O Pequeno Príncipe” poderiam causar alguma confusão, quanto a “Branca de Neve e os sete anões”, embora mais adequado, tinha muita gente e entrava uma bruxa malvada, de que não gostava, além de que não tinha coragem para dar propositadamente uma pancada forte na cabeça da irmãzinha; ainda tinha bem presente o susto que apanhara ao vê-la desmaiada. Livra! Felizmente, para ele, que fora coisa passageira, senão nem sabia como é que a sua vida estaria agora. Já para não pensar na da mãe e da irmã.
Depois desse episódio, por vezes a mãe pedia-lhe para contar histórias à pequerrucha, já que tinha obtido um tal sucesso num espaço de tempo tão curto, mas ele arranjava sempre artes de se esquivar, sabendo de antemão que o que acontecera fora algo irrepetível e inexplicável. Pelo menos ele não faria nada para que se repetisse. A acontecer, que não fosse ele o motor de desencadeamento do fenómeno.
Há coisas que não entendemos. Inexplicáveis.