quinta-feira, 15 de abril de 2021

 JANTAR DE NATAL

O jantar de Natal aparentava-se mais com a primeira refeição em família após o enterro de parente próximo do que a comemoração do nascimento do filho do Criador.
O silêncio escorreria, plúmbeo, pelos rostos pálidos, estendia-se sobre a mesa e esculpia os espaços dos ausentes. Mastigando, devagar e enfados, escutavam ainda o eco da voz daqueles que no Natal anterior se tinham sentado àquela mesa, rido, contado histórias e saboreado com deleite cada nova iguaria que ia surgindo, cada vez que alguém aspirava o perfume exalante das terrinas.
Quase não se permitiam fazer qualquer gesto que fizesse tinir os talheres que, muito sorrateiros, afloravam o prato. Os copos eram coniventes com os talheres e com o silêncio e não se atreviam a provocar a habitual vibração em data festiva. As palavras tinham-se ausentado, fatigadas. Um talher, estremecendo, caiu ao chão como um trovão que ninguém se atreveu a escutar. Frustrado na sua tentativa, regressou à mesa, escutando o silêncio ameaçador que já escorria pelos quadros encaixilhados. A canja parecia ter azedado, o peru emagrecido, as filhoses mirrado e o vinho, esse, entornado. Vinho entornado! Sinal de alegria ali tão descabido! Já reinaste, vinho, noutros Natais, aniversários, Páscoa e que mais. Hoje não é o teu dia. O Natal aqui não esteve. Foi aí que o Paulo deitou ao chão o copo já despido de silêncio. Peço desculpa, o Natal não vem jantar. Talvez o encontremos na sala de estar. Vamos lá, então!

2016.11.12

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