JULIANA
Meados
do século XIX. As margens da foz do rio Arade, Vila Nova de Portimão e
Ferragudo, namoravam-se à distância, com pequenos e breves beijos na ponta dos
remos das barcaças que faziam a travessia de gentes, mercadorias e animais.
Juliana, moradora na povoação de Ferragudo, vendia, entre outros produtos artesanais,
vassouras de palma que colhia da palmeira-anã, ou palmeira das vassouras,
desencantadas por entre rochas e matagais, deslocando-se na barcaça que unia as
margens, para mais facilmente encontrar compradores nas feiras e mercados de
Vila Nova de Portimão.
Vivia
pobremente, como todos os que nada tinham de seu. A bem dizer, o seu homem já
tivera algo de seu, um bote herdado do pai, com o qual garantira durante anos a
sobrevivência da família, até que, quis o destino, numa madrugada janeireira,
uma repentina tempestade, cruel e arrebatante, coadjuvada por ventos fortes do
sul decididos a exterminar os algarvios, o tenha desfeito contra uns rochedos,
onde, outrora, algo semelhante terá sucedido a Fenícios, Cartagineses e
Romanos, e, todavia, ele se tenha salvo, por milagre, que sempre os há. Fora-se
o instrumento de trabalho, mas tinha dois braços. O trabalho era escasso,
pouco menos que miséria, não fossem as vassouras. Ainda estava a
dever ao Calafate uma parte da reparação do último, melhor dizendo, do
penúltimo rombo na embarcação e ainda lhe parecia uma trágica mentira, ter-se
deixado tragar por um ímpeto da natureza. Sentia uma espécie de pedregulho na
garganta e quase desejava ter sido ele a ir-se, em vez do bote, que
estimava tanto ou mais do que a mulher e os três garotos. Fora pela família que
sobrevivera, qualquer coisa lhe soprara que não se deixasse arrastar pelos
açoites enfurecidos do mar, lutasse. Que seria deles se também lhes faltasse
...tão pequenos ... e a mulher, aquela menina de olhos meigos e pupilas
sonhadoras, que conhecera numa noite de baile de São João e a quem prometera
casar pelo Santo António do ano seguinte. Assumira esse compromisso com honra e
coragem para construir um pequeno lugarejo onde começar a vida. Por um atraso
burocrático, não casaram no dia combinado, mas pelo São João, aniversário do
início daquele futuro.
Sentia
a falta do pegadiço do sal nas mãos, não podia ficar de braços cruzados, era em
terra que tinha que buscar o pão. Mas onde, se a fome alastrava os campos
perante uma seca seguida de umas chuvas desproporcionadas, fora do tempo, que
destruíram as culturas. Ainda muito jovem, fora fazer a ceifa para o Alentejo, mas
com aquelas calamidades, não era um ano propício para lá voltar: muitas eram as
searas estragadas. Falaram-lhe que na Andaluzia o tempo não fora tão hostil. Juntou-se
a outros espoliados da sorte, ainda piores do que ele, que nascidos servos,
servos permaneciam. Iria voltar para reconstruir a vida e a sua independência:
um outro bote.
Enquanto
não regressasse as crianças precisavam de se alimentar e nem sempre havia
compradores para as vassouras de Juliana. Outras vendiam-nas mais baratas,
viviam no lado de lá, não precisavam ir ao Largo da Barca e pagar ao barqueiro.
Mas o mais abominável foi o dia em que o barqueiro era um malvado mastodonte, de
satânicos olhos azuis, de certo descendente de algum cruzado das terras do
Norte, recrutado entre os assassinos que arrasaram Alvor, até não restar
vivalma passada a fio de espada, no séc.XII. Juliana foi acometida por enorme pavor porque
nada vendeu e voltou vazia de bolsos. Mesmo prometendo pagar no dia seguinte, nada
demoveu o monstro infrene: exigiu o pagamento na hora, ali mesmo atrás de uma
moita. Havia quem pagasse com uma medida de grão ou de feijão, mas Juliana só
podia pagar com artigos de palma, que, dizia ele, já ter demais. Resistiu, quis gritar, mas ficou com os ossos
quase partidos que lhe custou uma semana de inactividade, os filhos sem comer,
vendo-os fazer bolinhos de terra com que enganavam a fome.
Má
sorte, achou-se grávida. Não sabia se era do marido. Temia que lhe nascesse um
ser diabólico, sanguinário, de olhos azuis. Passou meses a fio em agonia
permanente, mesmo depois do nascimento não sabia se aquele azulado das pupilas se
tornaria escuro como acontecera com os outros filhos; que era do leite, diziam,
depois escurecem. Sempre assim acontecera e agora... os meses passavam devagar,
torturantes, e por fim descansou: a menina tinha olhos escuros, embora de pele
mais clara. Era uma menina, desculpava-se, sem saber de quê.
Mas há
dias em que se escutam coisas, na taberna, que se preferia morrer a ouvi-las:
uma tirada mordaz: se a menina tinha olhos azuis ou castanhos. Foi o bastante
para o marido de Juliana perceber, conhecendo a fama de certo barqueiro. Não,
não iria construir um bote. Tampouco interpelou Juliana; que culpa tinha ela,
se a deixara sozinha na mira do dinheiro para o barco, para voltar a ter vida e
dar de comer à ninhada. Naquela hora, de que o ditado fala pela voz do
povo, "em má hora não ladra cão", não pensou na filharada. Foi um
momento de egoísmo em que colocou a sua e apenas a sua honra acima de tudo, até
da própria vida, sem ter em conta que a honra nos pobres é um luxo, e que
sabia ele de luxos. Os penhascos para onde a borracha tinha atirado e
destroçado o bote, sua fonte de vida e da família, foram os mesmos que lhe
serviram de tumba.
Juliana
não chorou, não gritou, não mais calcorreou matagais e rochedos em busca de
palma, não mais produziu nem vendeu uma vassoura, tão pouco o chão da casa
jamais viu vassoura nas suas mãos. Um molho delas, por vender, jazia a um
canto, resignadas.
Todos
os dias, sobre um rochedo, ficava de olhar fixo nos penhascos e na espuma
branca pulverizada, talvez sem nada ver, a menina no regaço, o peito fora da
blusa negra, a criança chupava, adormecia e chorava quando já não havia réstia
de leite para sugar.
A gaiatada, mimosa, descalça e fundilhos
remendados, a lambuzarem-lhe a saia preta, acompanhava-as, mas logo partia, em
bando, estendendo a mão pelas ruas e caminhos, por um pedaço de pão. Juliana
regressava a casa ao último raio de sol, deitava ao lume uma panela com água e
algumas ervas colhidas pelas veredas, todos bebiam numa sofreguidão e
adormeciam num sono agitado de estômago insatisfeito, para na manhã
seguinte voltar a montar sentinela em frente aos penhascos.
Num
dia em que a menina, no seu regaço, não parou de chorar, o peito seco, ao
anoitecer regressou a casa como de costume, com a criança esquelética e faminta
nos braços e um ramo de folhas diferente na mão, deitou a panela com água ao
lume e acrescentou-lhe as folhas. As crianças reclamaram que o caldo estava
amargo, mas em vez de açúcar tinham fome e um caldo quente sempre conforta o
estômago. Nessa noite, o conforto foi diferente.
Dias
depois, numa só tumba, numa só campa, foram a sepultar cinco seres a quem tudo
faltou, excepto a fome e o infortúnio.
Vendesse
Juliana vassouras em Vila Nova de Portimão em 1876, não teria precisado de
barqueiro para voltar para casa e dar de comer aos filhos: partiria de
Ferragudo a pé, percorreria os 332 metros de ponte rodoviária, que unira, finalmente,
as margens e inaugurada nesse mesmo ano, venderia, ou não, alguns
artigos de palma, faria o caminho de regresso e, salvo alguma partida do
destino, chegaria a casa sã e salva.
Juliana,
poderia ter assistido à inauguração, e rejubilado com o gentio de ambas as
margens, acompanhada pelo marido de peito apolíneo de homem dos mares, rodeados
pelos filhos e mesmo no ano anterior, só por curiosidade, poderiam ter tido acesso
temporário a certas partes da ponte já concluídas, no âmbito dos festejos do
Entrudo.
Ao que
parece, as pontes não servem apenas para unir margens: quer existam, quer não,
as pontes contam histórias, que só são trágicas ou felizes quando são reais.
Juliana é, nesta história, a ponte. Entre o que quer que seja.