sábado, 14 de maio de 2022

 

MIGUEL OU DOM QUIXOTE

 

Nem ele mesmo saberia quem era.

Tempos havia que se dissera Cervantes

_D. Quixote? Perguntaram-lhe?

Tinha, pelo menos, uma triste figura.

Irritado, respondera:

_Não! Miguel de Cervantes Saavedra!

 

Sentado nos degraus da praça

Ao lado uma sacola com papéis e jornais

Afiava, com a navalha,

Um a um, um molho de lápis em fim de vida

Sacava de uma folha amarrotada e escrevia.

 

O vento soprava forte, desrespeitoso

Subtraiu-lhe, por entre os dedos finos e um pouco trémulos,

A folha amarelecida como a das velhas árvores circundantes

E leu-se, algures:

“Perdi tempo a lutar contra moinhos de vento;

Perdi a vida amando em silêncio”.

 

Talvez não fosse D. Quixote

Talvez fosse Miguel

E sentisse como Cervantes!

quarta-feira, 11 de maio de 2022

 

MUNDOS PARALELOS À DERIVA

 

Para que quererias dividir o átomo?

Dividiste o teu pão?

Ou contentaste-te com partículas?

 

Toma-se um café desconhecendo as leis da física

Gigantescos aceleradores assustam-nos

Quarks e gluões

Geram massa sem possuírem massas

Como bancos falidos sempre em alta

 

Complexas teorias semióticas

Geram tecnologia e novas concepções

Entre doutrinas e métodos

Formulações em ciências exactas e naturais

Cibernética e que mais

 

Incertezas e contradições

Astrofísica fascinante

Decifra invisíveis universos

Telescópios apontados a outros mundos

Pegadas des-humanas em exoplanetas

 

Sondas e foguetões

Sinfonias expectrais

Espreitam imortalidades interestelares

Improváveis organismos extramófilos

Em insólito vermelho ogival

 

 

Espirais fragmentadas

Por naves reutilizáveis

Desenterram passados sem terra

Probalidades e relatividades

Nos confins do universo

 

O homem comum engole a angústia

Com uma garrafa de solidão

Em frente à tabela periódica

Onde assiste à guerra

Ao lado de armas enferrujadas

Num impossível mundo de terráqueo