segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

 

ME

 

Entardecem-me as palavras

   Vestidas de esquecimento

Encrespa-se-me o mar

   Ofuscado de estrelas

Encurva-se-me o caminho

   Povoado de sobressaltos

Encandeia-se-me o tempo

   Orvalhado de sóis

Alumia-se-me o silêncio

   Acorrentado a migalhas

Ensombreiam-se-me os passos

   Recolhidos na noite

Arremessam-me uma pedra

   Estrangulada de sílabas

Separam-me dos teus olhos

   Prometidos em abraço

 

PALAVRAS EM VENDAVAL

 

Entre montanhas e penhascos

Seguras o mundo com os pés

Metidos em rochas nuas nunca calcadas

Buracos de lua apagada

No espírito fugaz do tempo

 

Atalhos armadilhados de tempestades

Barcos afundando no rio

Afogam fagulhas de saudade

Em silêncios despedaçados

Medem distâncias imensuráveis

 

Palavras em vendaval uníssono

Cantam orvalhos amargurados

Em gotas de friagem dissipada

Fantasmas desassombrados pela noite

Brilham em centelhas de correntes

 

Viajantes arrepiados em pó de ouro

Esculpem diamantes com perícia

Equilibrados numa corda da via-láctea

 Ambicionam um rebanho de fofas nuvens

Para desvendar a poesia das palavras inquietas