domingo, 8 de março de 2026

 PERGUNTAS SE ME VOU

Perguntas se me vou

Para não mais voltar,

Mas não queres quem sou.

Tu não me vais amar.

Foi tudo uma ilusão.

Um sonho que se acabou,

Como um amor de Verão,

Ou um rio que secou.

Se tudo foi em vão,

E agora tenho de partir,

Devolve o meu coração

Para que torne a sorrir.

Vou, sem olhar para trás.

Disposto a esquecer,

Procurar a minha paz,

Aprender a viver.

Vou... soltar o meu grito,

Pôr o meu mundo a girar,

Dar o dito por não dito

E recomeçar... recomeçar...

 

16/08/2012

domingo, 9 de fevereiro de 2025


Muros


Muros erguidos por palavras e silêncios


Muros erguidos por acções e omissões


Muros erguidos entre ausências e aparências


Muros inderrubáveis por martelos e picaretas


Prisões invisíveis e mortais sem cadeados nem vigilantes


Que há de terrível nessas palavras

Que pesadelos gritam tais silêncios

Onde estivemos sem estar

Onde não estivemos estando


Entre muros

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

 

CHORO

Tenho vontade de chorar!

Tanta vontade de chorar!

Por mim?

Ou pelo Mundo!?

O Mundo não quer as minhas lágrimas

Tão pouco eu as mereço

Ainda assim, choro

 

Choro por todos

E por mim

 

Pelos que roubam

Para disporem duma vida melhor

Pelos que esperam libertar-se das privações

Pelos que se prostituem

Para além das carências físicas que os impelem

Pelos que procuram fugir aos uivos da solidão

Ainda que provisoriamente

Pelos que matam

Sejam quais forem as razões

Pelos que trabalham sem esperança

 

Choro por todos os que sofrem

Ainda que o ignorem

E esses, merecem as minhas lágrimas

Porque não o sabem

quinta-feira, 4 de julho de 2024

 

PINCELADAS À CHUVA

Final de estação

Seja ela qual for

Suspenso no vazio

Como reflexo no rio

Difícil é escolher

Entre chegada e partida

Sombra dourada

Ou manhã fugaz

Perdidas entre lembranças

Sob fina chuva

Rápidas pinceladas

Escorrem cor em segundos

Inesperados de azul

Como alma arfante

Em licoroso fruto

Na brisa dos sonhos

Corre um rio de utopias

Em harmónica canção

Suspensa por sintonias coloridas

E realidades esquecidas

Entre estrondosas loucuras

Incendiam-se manifestações de dor


 

POEMAS AO VENTO 

 

O vento que enfuna as velas

E leva o homem aos confins do mundo

É o mesmo vento que as despedaça

E atira o barco contra os escolhos

 

O vento que eleva o homem aos píncaros da ousadia

É o mesmo que o faz submergir, inerte, às profundezas do mar

 

O homem e o vento, harmonia ou morte

Entre uma e ou outra, há vida …

 

O vento que te refresca no estio

É o mesmo vento que te enregela no inverno

 

O vento é uma moeda de duas faces

Umas vezes ganhas

Outras perdes

A moeda é a mesma

E a diferença abissal

 

Enquanto isso, cara ou coroa, tanto faz:

Quando não se pensa, vive-se

Ou morre-se, pensando.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

 

FULGORES DESBOTADOS

 

Paisagem transparente e infinita

Entre flores pálidas e sombrias

Ardem, vagarosamente, renques de árvores

Como se expirassem ao luar

Numa demorada e incerta tarde

 

No teu corpo estendido sobre a areia

Adormeço entre sons soprados pelo vento

Sou o centro ilusório do mundo

Levemente tocada por vaga inspiração

Entre incêndios de conchas tecidas de luz

 

Em preguiçosa e cristalina ilusão

O tempo esvai-se entre róseos crepúsculos

E há um lugar de miragens sem fim

Outro mundo sem mim e sem ti

Onde acordam, por entre lírios, sábios pescadores

 

Divago por entre poemas esquecidos

Perfeitos em instantes imperfeitos

E, já em plena e mansa madrugada,

Na vastidão do silêncio, olho de mim para ti

Sem querer acordar, incógnita e esquecida

segunda-feira, 6 de maio de 2024

 

POETA SEM PALAVRAS

 

O poeta que rouba palavras aos mares e ao vento

Vive no medo constante que lhas peçam de volta

 

O poeta busca nas epopeias uma só palavra perdida

Vive no pavor  de as devolver a heróis derrotados

 

O poeta guarda palavras de velhos marinheiros naufragados

Teme que, um dia, na praia, lhas exijam como tábua de salvação

 

O poeta  descobre, em velhos livros, velhas palavras desprezadas

E atemoriza-o o momento de as enobrecer, libertadas

 

O poeta sonha com palavras de todos os lugares

Mas receia palmilhar os caminhos pelo desconhecido

 

O poeta imortaliza novas palavras de glória

E fica dividido entre a vitória e o vencido