sexta-feira, 18 de setembro de 2020

 




Nunca tinha visto o mar 

Diziam-me que o mar é azul, eu acreditei, mas não é. É verde. Como uma esmeralda. Que é furioso, revolto; porém vejo-o tão calmo nesta baía metade de melancia, apenas um rumorejar, orlado duma estreita e caprichosa franja branca rendilhada, que deposita com mansidão na areia cor de pele, como um afago, que logo repõe assim que se esfuma, como se a não quisesse deixar desornamentada. 
Que não se alcança o horizonte com a vista; contudo uma barra de nuvens arroxeadas emolduram os limites que vislumbro. 
Não se pode acreditar em tudo o que se ouve: que o mar é salgado. Sim, é salgado. Já duvidava se o que estou vendo é o mar. 
É diferente do que contam. Ou diferente serei eu. Daltónica nunca fui; talvez me tenha tornado. E também surda, por isso ouço rumorejos, em vez de rugidos. E já não veja bem: suaves ondulações em vez de grandes ondas. 
Ou não será isto que contemplo, o mar? Será um rio? Mas os rios correm, e este vai e vem, vai e vem, contínuo e ritmado. 
Um sentido certo, todavia, mantenho: o sabor a sal. 
O aroma é diferente dos cheiros do campo, da floresta, da cidade; desse não falam muito: referem-no como maresia. Sim, deve ser isso: maresia. 
Enquanto medito sobre algumas características do mar, não me dei conta de que as nuvens violeta que o enquadravam, se tinham descolorido e aproximado de praia; o mar transfigurara-se, como que aborrecido por uma visita inesperada e incómoda: ficara cinzento, primeiro prateado e aos poucos cor de chumbo, tal como as nuvens que se transformaram em seu espelho. Ou talvez o contrário; mas não: as nuvens é que o fizeram zangar. E o vento. Talvez o vento é que tenha trazido as nuvens e o mar mais zangado ficou. Ondas de cristas brancas, espumosas, cada vez mais alterosas vêm bater, sem descanso, na praia que há tão pouco afagava. E a sua voz alterou-se: tornou-se um trovão contínuo. O cheiro intensificou-se. Agora vou voltar a saboreá-lo. Ainda é salgado. E azul? Vou aguardar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A avó conta uma história à neta

Era uma vez uma estrelinha,  que brilhava ...brilhava ...
Lá no céu,  avó? 
Bem, o céu já tem muitas estrelas,  esta brilhava onde precisava brilhar!
Onde, avó, numa casa? 
Isso mesmo,  era numa casa que a estrelinha brilhava.
Numa casa pequenina?
No principio,  sim, numa casa pequenina,  quando a estrelinha também era pequenina. 
E depois, avó?
Depois, a estrelinha foi crescendo e um dia foi passear ao jardim com a avó. 
Um jardim com muitas flores e um baloiço?
Sim, tinha um baloiço, e num banco do jardim,  mesmo à frente do baloiço, estava uma senhora muito triste,  com a cabeça pendida para o colo e não olhava sequer para o canteiro de flores mesmo a seu lado. 
Porque é que a senhora estava triste avó?
Foi isso que a estrelinha perguntou à avó,  mas a avó não sabia. 
E foi perguntar à senhora? 
Não, não foi, mas a estrelinha ficou com pena das duas; da senhora por estar tão triste e por a avó ter ficado também um pouco triste por não saber. 
E depois?
Depois foi então que a estrelinha, já satisfeita de andar de baloiço, se aproximou da senhora triste e como junto do banco o canteiro estava repleto de florezinhas, colheu uma, apenas uma ...
Mas não se pode apanhar flores nos jardins que não são nossos. ..
Pois não,  por isso a estrelinha apanhou  só uma, muito pequenina, para não causar estrago e colocou-a na cavidade da mão,  quase fechada,  da senhora triste, e ficou ali à espera  ...
A flor cheirava bem, avó? 
Cheirava, sim, e a senhora estremeceu um pouco, como se tivesse acordado, olhou para a sua mão  que continha agora uma flor,  que parecia ter-lhe nascido mão. ..
E a avó da estrelinha não se zangou com ela por ter apanhado a flor?
Não.  Apesar de ter quebrado uma regra, por vezes para fazermos alguém feliz,  isso é necessário e  não é assim tão repreensivel. 
E depois? 
Bem, no dia seguinte voltaram ao jardim; viram primeiro, a alguma distância , se a senhora triste estava no parque e viram que sim e pareceu -lhes que não estava tão triste como no dia anterior. 
Porquê,  avó? 
Bem,  a senhora tinha a cabeça erguida e, de quando em vez,  olhava em redor.
Estava à espera que outra menina colhesse outra flor para ela? 
Talvez, e então,  avó e neta foram à florista,  ali mesmo ao lado,  comprar uma flor, que a estrelinha escolheu e ...
Era uma flor bonita,  avó? 
Muito bonita,  um lindo e sorridente girassol!
Ah, também temos no nosso jardim, e é a minha mãe que põe as sementinhas na terra para eles nascerem!
É verdade, têm sempre muitos e bonitos! Continuando, a estrelinha e a avó dirigiram-se para o banco onde estava a senhora,  que quando as viu, mais o girassol, sorriu. Já não estava triste, embora uma lágrima teimosa lhe rolasse pela face.
Porque é que a senhora  chorava? Não gostou da flor?
É que por vezes há lágrimas que há muito tempo estão para se soltar e a tristeza não deixa e que só se soltam quando esta se vai embora. 
E como é que a tristeza da senhora triste se foi embora? 
Porque a estrelinha,  com o seu brilho, o seu gesto espontâneo de lhe oferecer uma flor quando a viu triste, afastou dela a tristeza. 
E depois,  avó? 
Depois a senhora contou que também tinha uma neta que já tinha sido assim como a estrelinha,  mas que quando cresceu se foi esquecendo da avó e era por isso que estava triste. 
Quando eu crescer, avó,  venho à mesma passar férias contigo;  contas-me muitas histórias e depois escrevemos uma história as duas, o avô faz os desenhos e eu pinto. Pode ser, avó? 
Sim,  minha querida,  a nossa história já começou a ser escrita  desde o dia em que nasceste e talvez ainda muito antes. Uma história muito bonita!