Nunca tinha visto o mar
Diziam-me que o mar é azul, eu acreditei, mas não é. É verde. Como uma esmeralda. Que é furioso, revolto; porém vejo-o tão calmo nesta baía metade de melancia, apenas um rumorejar, orlado duma estreita e caprichosa franja branca rendilhada, que deposita com mansidão na areia cor de pele, como um afago, que logo repõe assim que se esfuma, como se a não quisesse deixar desornamentada.
Que não se alcança o horizonte com a vista; contudo uma barra de nuvens arroxeadas emolduram os limites que vislumbro.
Não se pode acreditar em tudo o que se ouve: que o mar é salgado. Sim, é salgado. Já duvidava se o que estou vendo é o mar.
É diferente do que contam. Ou diferente serei eu. Daltónica nunca fui; talvez me tenha tornado. E também surda, por isso ouço rumorejos, em vez de rugidos. E já não veja bem: suaves ondulações em vez de grandes ondas.
Ou não será isto que contemplo, o mar? Será um rio? Mas os rios correm, e este vai e vem, vai e vem, contínuo e ritmado.
Um sentido certo, todavia, mantenho: o sabor a sal.
O aroma é diferente dos cheiros do campo, da floresta, da cidade; desse não falam muito: referem-no como maresia. Sim, deve ser isso: maresia.
Enquanto medito sobre algumas características do mar, não me dei conta de que as nuvens violeta que o enquadravam, se tinham descolorido e aproximado de praia; o mar transfigurara-se, como que aborrecido por uma visita inesperada e incómoda: ficara cinzento, primeiro prateado e aos poucos cor de chumbo, tal como as nuvens que se transformaram em seu espelho. Ou talvez o contrário; mas não: as nuvens é que o fizeram zangar. E o vento. Talvez o vento é que tenha trazido as nuvens e o mar mais zangado ficou. Ondas de cristas brancas, espumosas, cada vez mais alterosas vêm bater, sem descanso, na praia que há tão pouco afagava. E a sua voz alterou-se: tornou-se um trovão contínuo. O cheiro intensificou-se. Agora vou voltar a saboreá-lo. Ainda é salgado. E azul? Vou aguardar.
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