UM
AMOR QUASE REAL
O ano agrícola de 1897 estava a ser terrível, em virtude da secura de um longo estio, causando falta de trabalho, o que se refletia em miséria por todo o Algarve. Como reflexo da crise económica da região, entre outras dificuldades contava-se também a que acontecia com o escoamento da produção vinícola de Lagoa, uma das suas produções agrícolas mais características e de peso na economia do concelho.
Que
ano aquele que o Rei de Portugal, D. Carlos I, tinha escolhido para visitar
oficialmente o “Reino dos Algarves”, com sua Augusta Esposa, a Rainha D. Amélia!_
exclamava Afonso para si mesmo.
Se
havia mais de três séculos que nenhum rei visitava a região e nem mesmo seu
pai, o rei D. Luís tinha tido a deferência de o fazer aquando da inauguração do
Caminho de Ferro nesta província em 1889, havia já oito anos, também podia ter
esperado por melhores dias; mas não. E
aí estava ele!
Em
setecentos anos, só oito reis terão vindo ao “Reino Sulino”, mas o que consta é
que D. Carlos costuma navegar pela costa algarvia, fazendo estudos oceanográficos ou, quem sabe,
em busca de um tesouro que salve este país das dívidas e o povo das agrumas da
fome. O certo é que parece interessar-se mais pelo fundo do mar do que pelo
governo da terra. E dizem até que é amigo dos pescadores que costuma encontrar,
nessas andanças, à pesca do atum que gosta de ficar a observar, a ponto de o tratarem
por Carlinhos e lhe oferecerem um cão
d´água algarvio, uma raça de cão de trabalho, parceiro dos pescadores desde
tempos imemoriais.
Enquanto
Afonso assim cogitava no que ouvira do Padrinho nos últimos dias, a Vila andava numa roda viva com o que, apesar de
tudo, considerava ser uma honra e um privilégio: a passagem da comitiva régia,
nesse dia, 14 de Outubro; era a colocação da faixa com a frase “Vivam Suas
Majestades”, era a escolha das colchas de damasco ou de tecido adamascado que
iriam ser colocadas nas janelas e varandins dos edifícios que ficavam no
percurso régio, eram uns pequenos retoques na caiação exterior, os arcos
floridos, os balões, os festões torcidos a alecrim, e mais um cem número de
pormenores que podiam marcar a diferença para melhor, no acolhimento régio, em
relação a outros concelhos, sobretudo numa época pouco oportuna para festejos.
A excitação geral era de tal ordem que alguns membros da comissão organizadora
da recepção real quase não dormiam, para que tudo decorresse pelo melhor, o que
não era tarefa fácil.
Afonso,
porém, não estava feliz; depois de tanto se ter afadigado ao lado do Padrinho, o
Visconde de Lagoa, para que o palacete
ficasse num brinquinho e digno de oferecer um lauto repasto a Suas Altezas
reais, tinha ficado deveras decepcionado, ainda mais do que próprio, que em abono
da verdade parecia ter ficado aliviado por, afinal, tal não suceder. É verdade
que muita despesa fora feita, quer no arranjo e pintura de algumas paredes,
quer na decoração da sala de jantar, mas muito teria que despender com o real
banquete e o seu brio aristocrático não aguentaria se ocorresse algum deslize político
ou, quem sabe, de etiqueta, menos conforme ao protocolo real.
O
Visconde de Silves tinha-se-lhe adiantado no oferecimento, que ele só efectuara
quando vira já tudo a meio e bem encaminhado, descrente como estava de não
conseguir obter os materiais necessários a tempo e horas de tudo estar pronto.
Examinando
a situação, era de prever a preferência, já que o Rei tinha concedido, a este
último, o título nobiliárquico de Conde quatro meses antes da visita.
E os
convites que teria de fazer e, sobretudo, a preocupação com os convites a não
fazer, deixavam-no indeciso e inquieto, dado que os ventos de mudança tinham
começado a soprar também no sul do país, embora de forma lenta, mas era dos representantes da
monarquia e do país que se tratava agora e não era ocasião para divergências e
muito menos para ressentimentos.
Podiam
pelo menos respirar, pensava Afonso, tudo se tinha resolvido, apesar de ser de
opinião de que o Padrinho se sentia um pouco vexado na sua dignidade
aristocrática. Ou talvez estivesse enganado.
Talvez
para camuflar a frustração de não ver a realeza sentada à mesa do Padrinho, que
o educara quase como um filho, após o desaparecimento dos seus progenitores,
vítimas de naufrágio quando regressavam de Lisboa onde se deslocaram ao serviço
do Visconde, Afonso, na noite anterior tinha-se excedido um pouco na ingestão
do vinho novo, excesso esse a que não estava habituado e o tinha deixado com
algum torpor.
O
galope de um alazão veio tirar Afonso deste estado de espírito, quando
reconheceu no cavaleiro, o seu amigo Raimundo, filho de um parente e amigo do
Visconde.
O próprio
Visconde, passados tantos anos após a morte do seu antepassado que lhe legara o
título ainda não o tinha visto reconhecido oficialmente e Afonso via neste
“esquecimento” mais uma razão para se sentir desconfortável, como se isso o
atingisse, a ele que não tinha o sangue do Padrinho, mas que era como se o
tivesse: o que atingia o seu protector atingia-o a ele em dobro. Não sabia
explicar, mas era isso que sentia, apesar de não estar muito certo da situação,
uma vez que o Visconde não gostava de abordar o assunto.
Nessa
manhã brumosa, o Visconde perguntara-lhe se o queria acompanhar na comitiva da recepção
real, que tinha previsto um passeio fluvial pelo Rio Arade até ao ilhéu do
Rosário, mas que provavelmente não se realizaria dadas as condições
atmosféricas que se apresentavam anunciadoras de uma tão desejada chuva que tanta falta fazia à agricultura, mas que era de todo
inadequada ao momento real. Afonso tinha declinado o convite e tinha mesmo decidido
ficar por ali a remoer a frustração, num estado de espírito que se coadunava
perfeitamente com o cinza envolvente da neblina. Contudo, agora Raimundo vinha
desinquietá-lo para irem ao encontro da comitiva régia, que encontrariam, por
certo, à entrada de Estômbar, pois já passava da uma e meia da tarde.
Não
fora o seu desânimo e teria tido o ensejo de observar o cortejo na travessia da
ponte sobre o Rio Arade, que estaria pejado de barcos decorados e ouviria as
entusiastas ovações da população, em alas ao longo de toda a ponte. Espectáculo
único, irrepetível. E Ferragudo, profusamente enfeitado, a essa hora já teria
recebido Suas Majestades sob o arco triunfal e ao som de uma banda musical, como
estava anunciado no programa organizado pela comissão de recepção.
Afonso
nunca sabia dizer que não ao seu companheiro de todas as aventuras e
desventuras juvenis, que era, tal como ele, um garboso
rapaz.
Meteram-se
a caminho, sob um céu plúmbeo, que a curtos espaços parecia querer desabar.
Já
perto de Estômbar avistaram ao longe a comitiva e posicionaram-se de modo a deixar
o caminho livre e apreciarem, ao largo, a passagem da realeza e de todo o
cortejo de figuras de destaque local, imprensa e até um acompanhante do Rei desde
Lisboa, seu ajudante e oficial, um
capitão natural de Lagoa, de que a terra muito se orgulhava.
Afonso
espraiou a vista sobre o cortejo e à passagem de uma das carruagens sentiu-se
como que atravessado pelo relâmpago de um olhar, que pela rapidez com que o
veículo circulava, não pôde seguir. Pensou para si se teria sido um relâmpago
real a anunciar trovoada ou seria o efeito retardado dos vapores do álcool
da véspera e logo desviou a atenção para observar a populaça, que seguia,
desordenada, numa natural euforia popular,
lançando vivas entre arcos de verdura, disfarçando a pobreza por detrás das
casas caiadas e ornamentadas com fotografias recortadas dos jornais, já
bastante encharcadas, emolduradas com balões e folhagens.
À
chegada a Lagoa, a chuva parecia ter desistido do seu intento e preferido
colaborar nas boas vindas a Suas Altezas Reais; os rapazes prenderam os cavalos
e quiseram seguir a comitiva a pé e, bem vestidos e de modos gentis, facilmente
conseguiram, por deferência de quem os conhecia, ficar o mais perto possível do
cortejo real, que se detivera no Largo dos Paços do Concelho, atapetado
com juncos e murta, onde soava já o hino nacional e o povo
simples, vindo dos campos para ver o Rei, entoava aclamações calorosas e
entusiásticas.
Ora,
duas meninas trajadas com lindos vestidos de organza, empunhando, cada uma, uma
rosa, atravessaram o terreiro e uma delas, talvez por se ter apressado um pouco
e não ter tido a devida precaução para não escorregar com os sapatos novos, de
sola ainda muito lisa, escorregou e, por azar, foi cair numa poça de água, que
os juncos disfarçavam traiçoeiramente e salpicou de lama o vestido, ainda há
pouco tão imaculado, e perdeu a rosa que segurava.
Logo
uma aia da Rainha, num impulso, se destacou do cortejo para acudir e consolar a
pobre menina, que inconsolável, se foi por onde tinha vindo, chorosa e
envergonhada.
Ambas
as meninas teriam por missão dirigir algumas palavras de boas vindas à Rainha e
cada uma entregar-lhe-ia uma flor.
Afonso
observou aquela linda aia, de uma beleza que ele nunca vira, de longos cabelos fulvos e ondulantes, que contrastavam com a alvura da pele,
tão perfeita como se de porcelana fosse.
Ainda
tentou disfarçar a perturbação que aquela visão lhe causava e procurou refletir
sobre que papel seria o da menina da rosa, que instituição ou entidade
representaria e que um pequeno incidente não lhe tinha permitido levar a cabo a
incumbência, que é como quem diz “levar a carta a Garcia”, mas logo o seu olhar
não quis outro alvo que não fosse o que lhe causava uma atracção magnetizante.
Ainda
assim, reparou que a aia contemplava a flor de que a menina se tinha esquecido,
ao levantar-se tão envergonhada, pousada à beira do alegrete e, num ímpeto,
dirigiu-se ao local e pegou na flor que depositou nas mãos seráficas de tão
bela donzela, que espontaneamente se entreabriram para a receber, como se outro
desígnio não tivessem.
Ao
fazê-lo, os seus olhos cruzaram-se com os dela, uns belos olhos verdes,
profundos, nos quais mergulhou, inebriado, enquanto se deslumbrava com o
sorriso do seu olhar. E novamente se sentiu atordoado com o fulgor daquele
relampejar, que agora percebia já ter sentido à passagem rápida da carruagem.
Com
uma ligeira vénia, como se da realeza se tratasse, retirou-se, sem que todavia,
o seu olhar se apartasse daquela visão, em cujas níveas mãos ele tinha deposto
uma rosa duma beleza também surpreendente pelas pétalas de veludo, da cor do néctar dos frutos
dos vinhedos de Lagoa.
Amor
perfeito…beleza ruiva ... rosa de veludo ... como de veludo lhe pareciam os
seus lábios, pensamentos, palavras, sensações, que jorravam sem pedir licença.
De tal
modo se tinha perdido em sonhos, que só um toque de Raimundo o trouxe à
realidade e se deu conta de que o casal real e a comitiva se dirigiam já para a
Igreja Matriz, não se lembrando de uma única palavra, quer de discurso do
presidente nem mesmo de qualquer palavra régia, proferidas nos Paços do Concelho.
Os
Reis para lá se encaminharam, acompanhados pelo Arcebispo-Bispo do Algarve e
por todos os párocos do concelho. Afonso, apesar de não ser dado a rezas, daria
tudo para lá entrar e postar-se, quase invisível, por detrás de uma coluna,
implorando à padroeira Nossa Senhora da Luz, que o deixasse seguir cada gesto
do que lhe parecia uma visão celestial, ou, quem sabe, demoníaca, já que o
atraía assim, sem remédio.
O
casal real e demais individualidades saindo sob um pálio, não fosse a chuva romper o contrato e fazer das suas, passaram pelo Mercado Municipal
recentemente inaugurado, que muito
apreciaram e dirigiram-se para a Santa Casa da Misericórdia, em cuja Capela
oraram depois de visitarem as enfermarias.
Nesse
percurso, Afonso voltou a encontrar o deslumbrante olhar, e desta vez, quiçá preces atendidas, a moça
levou a rosa ao rosto e pareceu aspirar o seu perfume, enquanto o olhava
profundamente como se o quisesse fixar para sempre. Pareceu-lhe uma promessa.
Mais do que uma promessa “régia”, a certeza de um sonho.
Durante
os trajectos pelas ruas floridas e engalanadas, paragens e cerimónias pelos
locais emblemáticos da Vila, apesar de acompanhado pelo amigo, Afonso sentia-se
noutra dimensão e só tinha olhos para a bela ruiva. Sentia que só por ela
respirava, que o mundo era ela e só ela.
Aí, no
Hospital da Misericórdia, enquanto uma menina oferecia uma flor à Rainha e lhe
lia um pequeno discurso, Afonso contemplou a adorada, que lhe retribuiu. Os
seus olhos pareciam dizer: estou livre e gosto de ti. Verdade ou equívoco por
querer ver isso mesmo?
Imaginava-a
já num esplendoroso dia de límpido céu azul, daqueles que prometem, logo ao
cantar do galo, um maravilhoso raiar.
Como
não podia deixar de ser, também o Recolhimento de S. José constava do programa
prévio, onde a título de excepção, entraram
não eclesiásticos do sexo masculino e em cuja Capela houve mais um
momento de oração.
Afonso
pouco se importava se tivesse de percorrer as Igrejas e Capelas do concelho e
fazer preces a todas as “Nossa Senhora”: Nossa Senhora da Encarnação, da Rocha
ou outra qualquer, conquanto o seu amor
encontrasse eco no coração daquele ser tão belo e precioso, do qual almejava
nunca se apartar, tanto mais que a palavra prece vinda do latim significa
precious,-onis, formavam a consonância perfeita.
A passagem real por Lagoa estava a chegar ao
fim e o povo clamava Vivas cada vez mais entusiastas, correndo atrás das
carruagens e abanando lenços brancos.
Por
seu lado, Afonso não se dava conta de que poderia ser a última visão daquela
que nas últimas horas modificara para todo o sempre a sua vida e via-se já, com
ela, a cavalgarem ambos até à beira-mar e passearem de mãos dadas pelas macias
e douradas areias da praia do Carvoeiro, ou da Azinhaga, onde o vento do norte
é mais suave ao açoitar a longa túnica branca que transforma a amada num anjo
sonhado.
A luz
do verão tornaria a sua tez mais rosada; o mar estaria lá, mas ignora se iriam reparar nele, a não ser que
viesse beijar aqueles pés amados, como súbdito arrependido de ínfima ousadia, e
conchinhas do mar viriam adorná-los, submissas.
E o
cabelo, esvoaçante, seria mais brilhante do que o sol, incendiar-se-ia! E os fulvos
reflexos nas águas, ninguém saberia dizer a quem pertenciam, se à mulher, se ao
mar.
Que diriam? Tudo e nada.
Veriam
pelo menos as gaivotas, ouviriam o seu piar?
Brincariam
com as conchinhas de madrepérola até ao crepúsculo, entre arribas coloridas.
Então, na escuridão tranquila, perfumariam a madrugada preguiçosa com o elixir
dos seus corpos cansados.
A
breve, mas intensa, passagem real pela Vila, estava prestes a terminar e todos
subiram para as carruagens, debaixo de calorosos Vivas da população que aderira
com tanto, e inesperado, regozijo. E foi a vez daquela indiscritível beldade
deixar, para sempre, o torrão natal de Afonso, cujo jovem coração palpitava
mais do que os dos corcéis que puxavam a carruagem, em dia de corridas.
Nesse
preciso momento, por imperdoável distracção do cocheiro ou por motivo
imprevisto, um dos cavalos pretendeu fazer uma falsa partida, o que provocou um
pequeno desequilíbrio na aia da Rainha, que deixou escapar da sua linda
mãozinha a flor que até aí segurara com tanto desvelo e estava agora desfeita
sob o rodado da carruagem.
Afonso
precipitou-se para a apanhar, mas era tarde demais e só viu o olhar dorido
daquela mulher encantadora.
Aquela
flor era o símbolo de um elo entre eles; nunca mais a veria e ela ... ela esquece-lo-ia,
na certa.
Que
infantilidade! assim pensou Afonso; sentir-se desalentado por causa de uma flor
que logo murcharia ... e logo reconsiderou: não, não era por causa de uma flor,
mas sim por causa d´Ela, da sua partida; a flor, essa, eu posso substituí-la!
E se
assim pensou, logo lhe surgiu a visão das orquídeas que um amigo do Visconde trouxera, de presente, há
anos das Antilhas, pelas quais o
Padrinho tinha grande estima e mantinha resguardadas numa pequena estufa ao
canto do jardim.
Os
Vivas iam já perdendo a força, à medida que a comitiva se afastava em direcção
a Silves e levava a sua amada. Afonso nem ouvia o amigo que lhe dizia: que
estás aí a fazer ainda e seguiu-o, como um autómato, enquanto ouvia a voz do Padrinho quando lhe mostrava as
preciosas flores: a de cor lilás simboliza a sedução, a vermelha o desejo
sexual, a branca o amor puro, a amarela ..., dessa não se lembrava e a negra,
essa que não tenho ainda, simboliza o poder, a autoridade.
_É
isso, disse para o amigo, que não compreendeu e ficou a olhar aquele estranho
comportamento, vendo-o correr o mais que podia até onde tinham deixado as
montadas.
Afonso,
sem esperar por Raimundo, montou a égua branca, encaminhou-se para casa e foi
direito ao canto do jardim onde se localizava a abençoada estufa. Uma vez aí,
colheu, impensadamente, mas com todos os
cuidados, uma orquídea lilás, uma vermelha e uma branca. Ao ver-se com tão
poderosos símbolos entre mãos, caiu em si, ao imaginar qual seria a reacção do
Visconde quando se visse desfalcado de tão preciosas flores e se alguma vez o
perdoaria. Talvez o Padrinho ainda se lembrasse do amor e do que na juventude
terá feito por ele e então ...perdoar-lhe-ia.
Assim
pensando, montou a galope pela estrada de Silves, cruzando-se com a edilidade
local que se despedira dos visitantes régios no sítio da Palmeirinha, onde
terminava o concelho e seguiu no encalce da caravana, nesta altura muito
aumentada em número de trens, pois que, por sua vez, a edilidade e o Conde de Silves tinham ido
esperar os Reis no limite do seu concelho e o cortejo tornava-se cada vez mais
extenso. Mais próximo da cidade, do alto do Monte Branco, via-se o povo
apinhado sobre a ponte, que alguns teimam em chamar romana, em alas até ao
Palacete do Conde, onde o casal régio entrou, sob Vivas calorosas e
esfusiantes.
Em
seguida, o anfitrião levou-os a visitar a sua Fábrica de Cortiça e
posteriormente foram encaminhados para a
Sé e para a Misericórdia, no meio de uma grande animação, com vistosas
iluminações e balões venezianos a enfeitar as ruas.
Aí, e
apesar da multidão, Afonso deu-se conta de que a Rainha não se fizera
acompanhar da aia nestes percursos, sentindo frustrada a sua intenção de lograr
um expediente que lhe permitisse entregar as orquídeas, e mais do que isso, o
que elas representavam de sentimentos.
O sol
outonal, que naquela tarde de Outubro pouco se tinha mostrado, já declinara há
muito por detrás do histórico castelo, esquecido e desmoronado e, antes que os
visitantes régios regressassem ao palacete para o banquete, foi para lá que
Afonso se dirigiu, em busca de notícias da senhora do seu coração, enquanto
cogitava se seria francesa ou inglesa – portuguesa certamente que não . Não que
isso fosse importante, mas por vezes a linguagem é necessária para evitar
equívocos; quando não os cria, admitiu também.
Quando
chegou ao Palacete do Conde e se lhe deparou a altura propícia, persuadiu um
criado de libré que estava no exterior a aproximar-se, e este, à vista de uma
moeda de prata, referiu que a bela aia se tinha recolhido à chegada, por se
encontrar em estado de extremo cansaço e a sua presença no cortejo fora
dispensada por D. Amélia.
Afonso
disse-lhe, então, que fosse, de imediato, entregar-lhe em mãos, aquelas
preciosas orquídeas, com a seguinte mensagem: Rosa Vermelha.
O
criado assentiu, sem compreender; ela compreenderia.
Quem
não se arrisca a um fracasso nunca chega a uma vitória, mas Afonso não podia
simplesmente pisar o portal de uma casa para onde não fora convidado e arriscar-se
a ser visto por outros criados a entrar no quarto da aia; seria a perdição de
ambos.
Contra
a entrega da moeda de prata e à vista de uma outra, o criado mencionou a localização de determinado
quarto, cuja janela dava para um jardim interior, rodeado por uma sebe. Uma
sebe nunca fora para ele um obstáculo e já tinha enfrentado, com êxito, outras
mais altas e mais densas.
Se bem
o pensou, melhor o fez e aí se manteve embrenhado, com o olhar fixo na janela
que, para si, continha um cosmos, até ao
momento em que lhe pareceu que uma bela silhueta se aproximava da dita e a
entreabria, de mansinho, voltando a desaparecer na obscuridade.
Com a
audácia e a agilidade da sua juventude, Afonso atingiu o soalho do quarto, que
rangeu, com subtileza, debaixo dos seus pés.
Os
Reis tinham regressado da sua itinerância pela cidade e soava já um reboliço
surdo da criadagem a transportar as travessas e servir o opíparo banquete de
trinta e seis convivas, em que a frágil aia estava dispensada pela Rainha de
lhe proporcionar qualquer apoio, dado se encontrar demasiado fatigada.
E isso
que importava?
Despida
e ofegante, qual deusa que se permite descer até junto ao comum dos mortais
para com eles gozar o que dizem ser as delícias terrestres, ali estava a sua
deusa encarnada.
Depois
... depois ... possessos e sem saberem de que poção, transpõem o limite da
fronteira em que todos os anseios se materializam na concretização, após o que
apenas subsiste uma vaga incerteza entre a realidade e o sonho.
Com a
mesma prudência que usaria um ladrão, a pesada
porta range, apenas de leve, nos gonzos entorpecidos, enquanto Afonso se
encontra ainda no difuso limiar da semi-vigília para a vigília.
A sua
amada sobressalta-se um pouco, ergue-se, com lassidão, dirige-se para a porta,
como se flutuasse, que se abriu de mansinho e ouve-a pronunciar, num sussurro:
_Já não vos esperava, Meu Senhor! Agora ide-Vos! Peço-Vos! Estou muito cansada ...
***
_O
Rei! O Rei D. Carlos! _ balbucia Afonso, enquanto esfrega os olhos e se
levanta, assarapantado.
_ A
sonhar com o penúltimo rei de Portugal, Afonso?! É o resultado de passares dia e noite embrenhado nesses livros de
História e de histórias ... adormeces no
sofá ... e sonhas com reis.
_Uff!
Ainda bem que acordei!, exclama meio estremunhado.
_Se
sonhasses com a rainha D. Amélia talvez acordasses com melhor cara ... Dizem é
que era uma mulher grande ...
_E
também uma grande mulher. Para o entendermos melhor só temos que conhecer a sua
história, que é também a nossa e de mais dois países: França e Inglaterra.
_Não
duvido ... Olha, o Raimundo está no jardim à tua espera; ofereci-lhe um café.
Diz que quer rever contigo os tópicos da Conferência desta tarde, sobre
...sobre ...
_”O
passado e o presente sempre ligados, rumo ao futuro”.
_Isso
mesmo! ... rumo ao futuro!
Nota
final: Alguns factos históricos foram extraídos da publicação do Arquivo
Municipal de Lagoa, “Visita Real ao Algarve (1897)”.
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