sexta-feira, 11 de março de 2022



O Papagaio da D. Conceição

O Papagaio da D. Conceição avisa-o sempre quando o caminho não está livre. Nada melhor do que um marido avisado. Lá diz o velho ditado: marido avisado vale por dois.
Na primeira vez que o papagaio o avisara, não fizera caso; não lhe conhecia a língua, não soubera decifrar o código.
Entrara em casa com a ligeireza que lhe era habitual; antes o não tivesse feito: ainda vislumbrou um vulto de duas pernas, por sinal compridas, a esgueirar-se pelas traseiras. Dera meia volta, para “arrefecer” e fingira ter esquecido o telemóvel no carro.
Durante alguns dias o Papagaio “falou” com a normalidade que lhe era habitual, ao fim dos quais voltou a lançar-lhe o aviso.
Agora, de sobreaviso, deu meia-volta, olhou o relógio: dar-lhes-ia meia hora.
Uma meia-hora bem folgada. Nada de aviso por parte do Papagaio. O caminho estava livre.
A mulher tinha as faces rosadas e os lábios, mais brilhantes e carnudos, desenhavam um suave e terno sorriso. Bem-disposta.
Não tardaria a saborear um manjar bem apaladado, sentado à mesa de costume, agora embelezada com uma rosa escarlate ao centro.
Quem não desejaria chegar a casa e ter à sua espera uma mulher assim! Basta estar atento ao código dos pássaros.


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