sexta-feira, 29 de julho de 2022

 

 

FOI UM ENGANO

 Quem foi que me disse para realizar grandes proezas?

 Quem foi?!  Quem foi?!

 Ah, ninguém se acusa?!

 E eu, que não prestei atenção, já não sei quem foi …

 Mas que disse … disse!

 

 E agora?

 A quem devo inculpar, se tanto tentei realizar e proeza não consegui?!

 Estava enganada;

 Fiquei cansada para nada.

 Afinal não era preciso.

 Bastava viver. E nada mais, que já é tanto!

 

 E agora?

 Estou velha para aprender!

 Como poderei morrer sem ter aprendido a viver?

 Ah, que vida desperdiçada!

 Foi um engano.

 Mais nada.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

 

RAÍZES E CIRCUNSTÂNCIAS

Circunstâncias tolas e fogazes

Destroem margens e correntes

Rios insensatos de sentimentos reprimidos

Invadem vastos invernos

E transbordam em primaveras

 

Raízes entrançadas de espuma

Entorpecem em abraços inquietos

Inconfessados lirismos sombrios

Enquanto risos estridentes

Ferem como palavras empedradas

 

Polémico ambiente musical hipnotizante

Infiltrado de invisível realidade

Constrói românticos fantasmas imagéticos

De vozes desoladas e perdidas

Por entre a densidade de ausências

E esboços de desertos

segunda-feira, 11 de julho de 2022

 

 ENTRE SOPROS E ESTILHAÇOS

 

Um sopro de verdade

Entre clemência e justiça

Palavras de ilusão

Consciência e intenção

 

Passados quebrados

De vidas emprestadas

Em filosóficas fusões

Espectros de civilizações

 

Felino abandonado e ferido

Errante em floresta de sombras

Escuta a folhagem, sem confusão

No sussurro da vegetação

 

Treme-lhe o peito

Acorda-lhe a alma

Ilumina-se a desilusão

Em épica profusão

 

As árvores despem-se

Os mastros vergam

Mergulha a cidade na escuridão

E dois assobios ecoam na multidão

 

Tolhem-se os fracos

Em pretéritos cruéis

E doidas visões

Em implacáveis perdições

 

Vacila

Hesita

Entre perturbações

E sensações

 

Estilhaços e desabraços

sábado, 9 de julho de 2022

 NADA … SEM TI

 

Sapatos sem dono

Camisas sem abraços

Calças sem pernas

Botões sem abrigo

Lenços sem brisa

 

Varandas sem vista

Cozinhas sem fogão

Mesas sem pão

Cadeiras sem pés

Livros sem palavras

 

Janelas sem cortinas

Chão sem passos

Pássaros sem canto

Madressilvas sem flor

Olhos sem meiguice

 

Ventos sem murmúrios

Distâncias sem fim

Perfumes sem aroma

Astros sem luz

Borboletas sem asas

 

 Violinos sem cordas

Rios sem pontes

Quadros sem cor

Luas sem luar

Figuras sem sombra

 

Espelhos sem reflexos

Praças sem gente

Navios sem leme

Mares sem fundo

Jardins sem flores

 

Corpos sem alma

Mãos sem ternura

Desejos sem amor

 

Nada …

Sem ti!

 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

 

 O HOMEM 

 

Pálido e sereno dia platinado

O sol, preguiçoso, foge ao brilho do orvalho

O homem, trémulo, em passos lentos e graves

Pensa em deuses desterrados, em vidas distantes

Sem nada nas mãos entorpecidas que já seguraram louros

 

Senta-se ao sol sem brilho e sem cor

Varre da alma memórias esculpidas pelo tempo

Sombras de noites antigas, anteriores a tudo

Encobrem amores, ecos de glórias, riquezas tantas

Numa solene consciência de repetidos outonos

 

Deslembrou velhos desejos, horas furtivas que não tornam

Indiferente às plantas ainda floridas que já não olha nem vê

Como se tempo, vida e morte fossem uma só

Imutáveis no eterno ciclo infindo, clausura imemorável,

Folhas caídas no inverno que não tarda, inclemente.

 

2021.12.22

segunda-feira, 4 de julho de 2022

 

BEIJO CAÍDO

 

Beijo atirado na palma de uma mão

Pousa, de rosto em rosto,

Desejos de loucura

Hipóteses de coragem insana.

Alguém duvida, e exclama: Não!

 

Momentos de acaso e sofreguidão

Minutos inteiros passam, mudam

Pautas de música em cadeia

Olhares grávidos de prosa

Suaves delírios de aceitação

 

Compôr um grito floreado em clarão

Frágil poesia de um presente aberto

A preceito vestido, sorriso perverso

Gigantes em desvaneios coloridos

Despertam, assombrados, sem razão

 

Sonhando falsidades e desilusão

Doido em busca de lucidez

Passeia-se entre abismos e vales sagrados

Com genial e sábia consciência

Desiludido, cai o beijo ao chão …