FOI UM ENGANO
FOI UM ENGANO
RAÍZES E CIRCUNSTÂNCIAS
Circunstâncias tolas e fogazes
Destroem margens e correntes
Rios insensatos de sentimentos reprimidos
Invadem vastos invernos
E transbordam em primaveras
Raízes entrançadas de espuma
Entorpecem em abraços inquietos
Inconfessados lirismos sombrios
Enquanto risos estridentes
Ferem como palavras empedradas
Polémico ambiente musical hipnotizante
Infiltrado de invisível realidade
Constrói românticos fantasmas imagéticos
De vozes desoladas e perdidas
Por entre a densidade de ausências
E esboços de desertos
ENTRE SOPROS E ESTILHAÇOS
Um sopro de verdade
Entre clemência e justiça
Palavras de ilusão
Consciência e intenção
Passados quebrados
De vidas emprestadas
Em filosóficas fusões
Espectros de civilizações
Felino abandonado e ferido
Errante em floresta de sombras
Escuta a folhagem, sem confusão
No sussurro da vegetação
Treme-lhe o peito
Acorda-lhe a alma
Ilumina-se a desilusão
Em épica profusão
As árvores despem-se
Os mastros vergam
Mergulha a cidade na escuridão
E dois assobios ecoam na multidão
Tolhem-se os fracos
Em pretéritos cruéis
E doidas visões
Em implacáveis perdições
Vacila
Hesita
Entre perturbações
E sensações
Estilhaços e desabraços
NADA … SEM TI
Sapatos sem dono
Camisas sem abraços
Calças sem pernas
Botões sem abrigo
Lenços sem brisa
Varandas sem vista
Cozinhas sem fogão
Mesas sem pão
Cadeiras sem pés
Livros sem palavras
Janelas sem cortinas
Chão sem passos
Pássaros sem canto
Madressilvas sem flor
Olhos sem meiguice
Ventos sem murmúrios
Distâncias sem fim
Perfumes sem aroma
Astros sem luz
Borboletas sem asas
Rios sem pontes
Quadros sem cor
Luas sem luar
Figuras sem sombra
Espelhos sem reflexos
Praças sem gente
Navios sem leme
Mares sem fundo
Jardins sem flores
Corpos sem alma
Mãos sem ternura
Desejos sem amor
Nada …
Sem ti!
O HOMEM
Pálido e sereno dia platinado
O sol, preguiçoso, foge ao brilho do orvalho
O homem, trémulo, em passos lentos e graves
Pensa em deuses desterrados, em vidas distantes
Sem nada nas mãos entorpecidas que já seguraram louros
Senta-se ao sol sem brilho e sem cor
Varre da alma memórias esculpidas pelo tempo
Sombras de noites antigas, anteriores a tudo
Encobrem amores, ecos de glórias, riquezas tantas
Numa solene consciência de repetidos outonos
Deslembrou velhos desejos, horas furtivas que não tornam
Indiferente às plantas ainda floridas que já não olha nem vê
Como se tempo, vida e morte fossem uma só
Imutáveis no eterno ciclo infindo, clausura imemorável,
Folhas caídas no inverno que não tarda, inclemente.
2021.12.22
BEIJO CAÍDO
Beijo atirado na palma de uma mão
Pousa, de rosto em rosto,
Desejos de loucura
Hipóteses de coragem insana.
Alguém duvida, e exclama: Não!
Momentos de acaso e sofreguidão
Minutos inteiros passam, mudam
Pautas de música em cadeia
Olhares grávidos de prosa
Suaves delírios de aceitação
Compôr um grito floreado em clarão
Frágil poesia de um presente aberto
A preceito vestido, sorriso perverso
Gigantes em desvaneios coloridos
Despertam, assombrados, sem razão
Sonhando falsidades e desilusão
Doido em busca de lucidez
Passeia-se entre abismos e vales sagrados
Com genial e sábia consciência
Desiludido, cai o beijo ao chão …