quinta-feira, 5 de outubro de 2023

 

 

ANTIBIOGRAFIA


Não vou pelo tempo nem por modas

 tal como Luiza Neto Jorge

 no seu poema minibiografia

 porque não sei se o tempo existe

 ou se foi inventado.

 Não que tenha sido eu

que nada sei inventar

 E, se por acaso o que fiz,

 foi pura inconsciência

 e desconheço.

 Se isso me retirar alguma culpa,

 porque também muito criminoso comete crimes

 sem que de tal tenha consciência,

 e como sou pouco letrado em leis

 aliás como em tudo o mais,

 não sei se esse facto, ou não facto,

 torna a pena mais leve.

Seja como for também não vou em modas

 por uma incapacidade minha

 em me manter muito tempo dentro de um hábito

 mesmo que passageiro como são as modas.

 É que, quando se torna moda, eu já fui

Já estou noutra dimensão qualquer,

 e não digo isto por me julgar superior,

 muito pelo contrário, porque assim estou sempre só

 E essa dimensão

 só se torna moda, não entendo porquê,

 quando estou prestes a deixá-la.

 Por isso não posso escrever a minha biografia

 por muito mini que seja

quarta-feira, 26 de julho de 2023


INEPTIDÃO

Há um mundo imenso dentro de mim

Há outro mundo imenso fora de mim

 

Estão separados.

Por vezes interagem

Umas vezes melhor, outras pior

 

É o meu corpo que os separa.

Um organismo sofisticado por dentro

Que do exterior, felizmente, não transparece

 

Não é apenas o meu corpo físico que os separa,

Antes uma mente inadaptada ao corpo,

Ou um corpo inadaptável à mente

 

E nesta ineptidão

Não sei qual mais sofre:

Se o corpo se a mente

quarta-feira, 28 de junho de 2023

 

SOL DE PEDRA

Enlace de amores envelhecidos

Mapeado de novas respirações

Como centelhas de florestas abatidas

Procuram, exaustos, uma última ilha

Com incêndios de neve parda

 

Achado e tangido o sonho parado

Transformam hábitos magoados

Em frutos trémulos e pétalas rumorosas

Quebram os frenéticos relógios do tempo

Com a naturalidade das coisas incertas

 

Numa fonte de orvalho,

De jasmins perfumados

Soa o eco de um abismo

De fundos secretos e estreitas galerias

Oceano de testemunhas cristalinas

 

Agitam-se bandeiras de vidro

Respiram-se ventos e pássaros

Em música ilógica e desfeita

Dispersando pensamentos estilhaçados

De génios enigmaticamente perdidos

 

Empurram uma porta imaginária

Com sólidas forças silenciosas

Imitando as pedras do rochedo

Rasgam lentamente o nevoeiro dos tempos

E esperam, por fim, o último sol, com cheiro a maresia.

 

 

PENSEI-TE

 

Pensei-te poemas de amor em breves urgências

Escritos entre lágrimas e dor

Nos umbrais da vida que nos desenquadra

Em gestos disfarçados de silêncio

Na dormência repetida da insónia

Sem vertigens nem arrepios

Ausência de misticismo no horizonte

Pincelando noites cerradas

Pensei-te

quarta-feira, 8 de março de 2023

 

Arde o vento

 

 Arde o vento

 esquecido do deserto

 e segreda baixinho

 flutuando sobre a terra

 em curvas de aragem

 por frinchas abertas na pele

 

 Respira suor vulcânico

 circunscrito à fúria das amarras

 em veloz silêncio

 

 Lança dardos e sinais

 libertados em serpentes de palavras

 incendiados por vorazes pensamentos

 nas madrugadas falhas de desejo

 como se remasse entre chamas

 habitadas por espelhos e estrelas

 

 Instantes enganados e enganadores

 longínquos horizontes cósmicos

 explode em rios tumultuosos e febris

 

 Desce por fim, errante

 e descobre, entre o norte e o sul

 o seu labiríntico destino

 em marcos desencontrados

 como cachos de eternidades

 eternas

 

2022.12