quinta-feira, 4 de julho de 2024

 

PINCELADAS À CHUVA

Final de estação

Seja ela qual for

Suspenso no vazio

Como reflexo no rio

Difícil é escolher

Entre chegada e partida

Sombra dourada

Ou manhã fugaz

Perdidas entre lembranças

Sob fina chuva

Rápidas pinceladas

Escorrem cor em segundos

Inesperados de azul

Como alma arfante

Em licoroso fruto

Na brisa dos sonhos

Corre um rio de utopias

Em harmónica canção

Suspensa por sintonias coloridas

E realidades esquecidas

Entre estrondosas loucuras

Incendiam-se manifestações de dor


 

POEMAS AO VENTO 

 

O vento que enfuna as velas

E leva o homem aos confins do mundo

É o mesmo vento que as despedaça

E atira o barco contra os escolhos

 

O vento que eleva o homem aos píncaros da ousadia

É o mesmo que o faz submergir, inerte, às profundezas do mar

 

O homem e o vento, harmonia ou morte

Entre uma e ou outra, há vida …

 

O vento que te refresca no estio

É o mesmo vento que te enregela no inverno

 

O vento é uma moeda de duas faces

Umas vezes ganhas

Outras perdes

A moeda é a mesma

E a diferença abissal

 

Enquanto isso, cara ou coroa, tanto faz:

Quando não se pensa, vive-se

Ou morre-se, pensando.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

 

FULGORES DESBOTADOS

 

Paisagem transparente e infinita

Entre flores pálidas e sombrias

Ardem, vagarosamente, renques de árvores

Como se expirassem ao luar

Numa demorada e incerta tarde

 

No teu corpo estendido sobre a areia

Adormeço entre sons soprados pelo vento

Sou o centro ilusório do mundo

Levemente tocada por vaga inspiração

Entre incêndios de conchas tecidas de luz

 

Em preguiçosa e cristalina ilusão

O tempo esvai-se entre róseos crepúsculos

E há um lugar de miragens sem fim

Outro mundo sem mim e sem ti

Onde acordam, por entre lírios, sábios pescadores

 

Divago por entre poemas esquecidos

Perfeitos em instantes imperfeitos

E, já em plena e mansa madrugada,

Na vastidão do silêncio, olho de mim para ti

Sem querer acordar, incógnita e esquecida