sábado, 12 de dezembro de 2020

 

O SENHOR DIAS

O senhor Dias tem mais de oitenta anos. O senhor Dias é uma pessoa muito conceituada na terra. O senhor Dias é um filantropo: ama tanto os animais, como as plantas e as pessoas. O senhor Dias é uma pessoa adorável: simpático, afectuoso, prestável e muito delicado e respeitador. Tem sempre uma palavra amiga para quem dela carece e para quem não carece. É uma das figuras principais da terra desde tempos imemoriais: ele era o correio, ele o banco, ele era o táxi, ele era o embalador, ele era o conselheiro em questões legais. Agora na terra há tudo isso, mas ele parece ignorá-lo e continua a prestar serviços a quem o procura. Ficou viúvo há mais de vinte anos, não se sabendo se deu por tal, já que tudo continuou quase na mesma: vive no escritório onde recebe quem precisa, o que por vezes não é mais do que um dedo de conversa para esquecer a solidão, coisa que o senhor Dias ignora por viver sempre rodeado de gente que o estima. Não se sabe se o senhor Dias se lembra de que tem um filho que não vê desde que a mãe morreu e foi viver para uma propriedade que a falecida herdara por morte dos pais e de que talvez nem se lembre. Aí, o filho tornou-se criador de cães de raça e abomina os humanos, com quem apenas contacta, só e apenas, para fins comerciais.

Uma noite o senhor Dias teve um sonho ou aconteceu outra coisa qualquer que permitiu que toda a gente da terra tivesse acesso ao seu verdadeiro eu, àquele que todos escondem dos outros, que é o que toda a gente faz, pois de contrário a vivência seria quase impossível ou pelo menos improvável.

 

Era entrar como no cinema ou pelo menos numa exposição animada, em que o lado “invisível e obscuro” do senhor Dias era “visto” por todos, desde a idade dos vinte anos, já que até aí não havia nada de invulgar e de reprovador, apenas os mágicos sonhos e traquinices de criança e o desejo adolescente de ter para si todas as raparigas que pudesse. Foi a partir daí, desde que um colega lhe roubara aquela que ele mais cobiçava que o seu oculto lado começou a ficar sinistro, repleto de desejos de morte ao outro e pensamentos de vingança. Se foi um começo, ou se de qualquer modo se tornaria assim, não se pode afiançar, nem mesmo ele, que umas vezes “conhece” e abomina tais propósitos e outras vezes maquina na maneira astuciosa de os pôr em prática, chegando mesmo a factos, apesar de algumas vezes se arrepender e outras não concretizar, por impossibilidade física ou social, mas sobre as quais não deixa de remoer, quantas vezes enquanto sorri e cumprimenta, levantando levemente o chapéu, que nos últimos anos já não usa, mas de que lhe ficou o gesto, não fosse a inclinação da cabeça se poderia confundir com uma continência.

Toda a população teve conhecimento da referida exposição que abarcava os “negros” do senhor Dias dos últimos mais de sessenta anos, desconhecendo, porém, que se tratava dos “abismos” de tão distinto cavalheiro. Quem quisesse saber a identidade de tal besta teria de visitar a exposição durante meses a fio e talvez anos. Quem o fazia por mera curiosidade de ver o lado negro de alguém, duas coisas podiam acontecer: saía de lá agoniado pela sordidez ou um pouco reconfortado por haver outro alguém igualmente promíscuo e desalmado.

À medida que as semanas passavam, as pessoas mais comentavam tal carácter, que não acreditavam caber na totalidade numa única pessoa.

Um amigo do senhor Dias, mais ocioso, que nada tinha para fazer a não ser cavaquear com ele, passou a visitá-lo menos no escritório, parecendo pouco à vontade, e começou a passar mais tempo na exposição, de tal modo estava interessado em conhecer a identidade do indivíduo, com o qual se identificava em diversas situações, de modo que chegou a ter medo de que fosse ele mesmo, se bem que havia algumas que nunca lhe teriam passado pela cabeça, não que fosse melhor pessoa do que aquela que via retratada, mas simplesmente  uma ou outra situação não se lhe tinha deparado na sua vida, que as coisas são assim mesmo; os sentimentos, emoções e reações originam-se mercê das circunstâncias.

As pessoas pareciam precisar cada vez menos do auxílio do senhor Dias, não que lhes passasse pela cabeça que a exposição estava relacionada com ele, mas porque começaram a andar mais metidas consigo mesmas, sentindo-se umas vezes mal quando não procediam bem embora ninguém o soubesse a não ser as próprias, outras vezes avaliando se poderiam ser vítimas de tais maquinações.

O senhor Dias começou a ficar cada vez mais só, ele que desconhecia a palavra solidão, a quem tinha votado a mulher e, quiçá, o filho. Um dia, depois de ninguém, mas ninguém mesmo, ter aparecido no escritório, nem mesmo o seu mais antigo amigo, lembrou-se da sua mulher, depois lembrou-se de que esta morrido, de que tinha sido bonita, mas não tão bonita como a outra, aquela que o amigo lhe tinha “roubado” sem que disso tivesse tido consciência, já que ele na altura o que queria era tê-las todas, como se fosse um sultão com o seu harém. O amigo procedera como um rapaz que quer casar, enquanto ele só queria namorar. Todas.

Enquanto isto, passara quase um ano de contínua exposição, cada vez mais frequentada e o amigo estava prestes a chegar ao fim, onde finalmente seria revelado o nome do abominável.

Na noite desse dia, o senhor Dias que dormira sempre tão bem depois de cada dia tão preenchido e que não conhecera uma única insónia, espécie pela qual nunca se interessara, talvez por isso mesmo, e porque os oitenta já estavam muito avançados, foi ela, a própria insónia, que se interessou por ele, flagelando-o impiedosamente noite fora, durante a qual se lembrou de que tivera um filho. Um filho que ele empurrava: fica aí com a tua mãe que eu tenho muito que fazer.

E não é que o senhor Dias chorou?! Quando é que tinha chorado? Nem quando o amigo lhe “roubara” a moça! Não chorou. Amaldiçoou-os, a ambos. E outras coisas terríveis. Mas chorar … só uma vez, em miúdo, quando esfolou os joelhos e rasgou as calças novas e não podia aparecer naquele estado às miúdas que esperavam por ele à porta da igreja. Não para casar, claro. Enfim, outras coisas.

Os mais persistentes na frequência da continuação da exposição continuavam intrigados com aquela personagem odiosa, se não mesmo repugnante, algumas vezes.

No dia seguinte o senhor Dias não se levantou. Ninguém bateu à porta do escritório. Ninguém precisava dele. Nem a mulher. Nem o filho tampouco.

O amigo chegara ao fim da exposição. O nome que surgiu no grande ecrã era o do seu amigo. O do senhor Dias.

À saída tiveram de ampará-lo. Seria da fraqueza, diziam, já que cada vez mais ele passava dias inteiros na exposição, e agora murmurava: o Dias, o Dias. Trouxeram-lhe água com açúcar. O Dias, o Dias, continuava ele, sem acreditar que o seu mais antigo amigo fosse aquele monstro. Aquele monstro que lhe tinha feito, a ele, aquelas coisas e, pior do que isso, o que ele lhe desejara todos estes anos: que morresse, para finalmente lhe ficar com a mulher. Iria ter com ele, para o desfazer. E talvez não precisasse. Quando todos soubessem que ele era aquele … não precisaria mover uma palha.

Quando o viram recuperado e souberam que tinha chegado ao final da exposição, a pergunta surgiu, impaciente, na boca de todos: quem é o malvado. À resposta já conhecida, todos os maxilares se descaíram de espanto e de incredibilidade. Como não podiam ver por si mesmos sem que tivessem feito o percurso total da exposição e não estavam dispostos a esperar para o verem com os próprios olhos, disseram: o que está a dizer é impossível, não sabemos por que diz tal mentira, é uma grande maldade fazer isso ao senhor Dias, nunca conhecemos ninguém como ele! Ao que o amigo do senhor Dias contrapôs: também eu não o supunha, até ter visto o nome, em letras bem grandes, por sinal. Escutou em resposta: se nos está a enganar, pode crer que todos juntos faremos de si um picadinho e não vai haver lei que nos possa incriminar, somos muito e não perdoamos a quem, injustamente, quebre as pernas do nosso ídolo de carne e osso.

Dispostos a pôr em pratos limpos o que lhes parecia uma calúnia, dirigiram-se, em magote cada vez mais grosso, ao escritório do senhor Dias, que encontraram fechado, facto inédito. Bateram, primeiro com educação, que se foi tornando violência com o passar dos minutos e cuja porta não resistiu à pressão da populaça que queria ver esclarecido aquele equívoco e que ele, senhor Dias, iria clarificar para que todos saíssem dali aliviados. Não seria bem assim, porque tinham prometido fazer picadinho do outro. Em contrapartida, se não o fizessem não ficariam bem vistos aos olhos uns dos outros: além de faltarem à palavra seria como uma traição ao senhor Dias, que não o merecia. Iriam, porém, continuar intrigados até que mais alguém conseguisse concluir a extensa exposição e aí, sim, o nome que surgisse seria o do verdadeiro perverso, e não o do admirável e benfazejo senhor Dias.

Quando a porta se escancarou, encontraram o inesperado: o senhor Dias inerte, hirto e frio.

A multidão precisava que o senhor Dias a aconselhasse numa hora daquelas. Estavam num dilema. Desamparados, como ovelhas abandonadas à sorte, começaram a dispersar, a ir às suas vidas, num entorpecimento quotidiano.

Os funerais naquela terra costumavam ser divertidas reuniões.

Não foi o caso. Nunca se viu um funeral tão lúgubre, tão pesaroso, tão tristonho: em suma, tão fúnebre, não tanto pelo senhor Dias, que já pouca ou nenhuma falta lhes fazia, mas que, porém, os obrigava a pensar no lado obscuro de cada ser humano. Se era ou não verdade o que o amigo tinha dito, já pouco ou nada interessava: a exposição foi desmantelada. Deixara de fazer sentido.

O amigo, esse, não parecia o mesmo: o que dizia à mulher não fazia sentido para ela e cuidou que fosse por ter ficado perturbado com a morte do amigo de sempre. As pessoas da terra quando o encontravam não era bem a ele que viam: como há em tudo dualidade, umas entreviam o senhor Dias; outras viam-se a si mesmas, àquilo que a morte do senhor Dias fizera delas. E baixavam a cabeça, incapazes de compreenderem, num misto de melancolia e sequidão, o que eram, afinal, as suas vidas.

 

 

Paderne, 2 de Dezembro de 2020


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

 

É Natal

Porque chove!

 

As gentes estão contentes

Porque chove!

 

É preciso dizer tudo de novo

Porque chove!

 

É primavera nas almas

Porque chove!

 

Há um salmo no ar

Porque chove!

 

Há encantos e murmúrios

E segredos inocentes

Porque chove!

 

Há odores delicados

E magia palpitante

Porque chove!

 

Um verso de poeta

Uma rima de poesia

Porque chove!

 

Um milagre

Uma esperança

Porque chove!

 

E o arco-iris pintou o céu

Mudou as cores da terra

Saciou a veia da natureza

 

A chuva é o sol da vida

Raíz da floração!

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Quisera eu

Quisera eu

Burilar a tua alma

De pedra rara

Desenhar-lhe o meu coração

Para que me amasses

 

Quisera eu

Pintar o teu olhar

Penetrante

E impenetrável

Para à  tua alma chegar

 

Quisera eu

Ser música

Embalar os teus sonhos

Compor-te um adágio

Fosse eu a tua musa

 

Quisera eu

Ser ouro e prata

Cobrir-te de riquezas

Ser para sempre

O teu ídolo

 

Quisera eu

Quisera eu

Que me amasses

Um pouco

Mas para sempre!

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

 

Não sei se te esqueci

 

Não sei se te esqueci

Se te apaguei de mim

Memória cheia de vento

Rosto sem sentimento

 

Locais, cheiros, sons

Cores sem tons

Lacunas antigas

Palavras esquecidas

 

 Não sei se te esqueci

Se te perdeste de mim

Sem alento

Nem lamento

 

 Noite transparente

 De espanto persistente

 Luzes tremeluzidas

 Entre sonhos perdidas

 

Trémulo e glacial

Terramoto sideral

Entusiasmo perdido

E para sempre esquecido


Outubro 2020

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

 




Nunca tinha visto o mar 

Diziam-me que o mar é azul, eu acreditei, mas não é. É verde. Como uma esmeralda. Que é furioso, revolto; porém vejo-o tão calmo nesta baía metade de melancia, apenas um rumorejar, orlado duma estreita e caprichosa franja branca rendilhada, que deposita com mansidão na areia cor de pele, como um afago, que logo repõe assim que se esfuma, como se a não quisesse deixar desornamentada. 
Que não se alcança o horizonte com a vista; contudo uma barra de nuvens arroxeadas emolduram os limites que vislumbro. 
Não se pode acreditar em tudo o que se ouve: que o mar é salgado. Sim, é salgado. Já duvidava se o que estou vendo é o mar. 
É diferente do que contam. Ou diferente serei eu. Daltónica nunca fui; talvez me tenha tornado. E também surda, por isso ouço rumorejos, em vez de rugidos. E já não veja bem: suaves ondulações em vez de grandes ondas. 
Ou não será isto que contemplo, o mar? Será um rio? Mas os rios correm, e este vai e vem, vai e vem, contínuo e ritmado. 
Um sentido certo, todavia, mantenho: o sabor a sal. 
O aroma é diferente dos cheiros do campo, da floresta, da cidade; desse não falam muito: referem-no como maresia. Sim, deve ser isso: maresia. 
Enquanto medito sobre algumas características do mar, não me dei conta de que as nuvens violeta que o enquadravam, se tinham descolorido e aproximado de praia; o mar transfigurara-se, como que aborrecido por uma visita inesperada e incómoda: ficara cinzento, primeiro prateado e aos poucos cor de chumbo, tal como as nuvens que se transformaram em seu espelho. Ou talvez o contrário; mas não: as nuvens é que o fizeram zangar. E o vento. Talvez o vento é que tenha trazido as nuvens e o mar mais zangado ficou. Ondas de cristas brancas, espumosas, cada vez mais alterosas vêm bater, sem descanso, na praia que há tão pouco afagava. E a sua voz alterou-se: tornou-se um trovão contínuo. O cheiro intensificou-se. Agora vou voltar a saboreá-lo. Ainda é salgado. E azul? Vou aguardar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A avó conta uma história à neta

Era uma vez uma estrelinha,  que brilhava ...brilhava ...
Lá no céu,  avó? 
Bem, o céu já tem muitas estrelas,  esta brilhava onde precisava brilhar!
Onde, avó, numa casa? 
Isso mesmo,  era numa casa que a estrelinha brilhava.
Numa casa pequenina?
No principio,  sim, numa casa pequenina,  quando a estrelinha também era pequenina. 
E depois, avó?
Depois, a estrelinha foi crescendo e um dia foi passear ao jardim com a avó. 
Um jardim com muitas flores e um baloiço?
Sim, tinha um baloiço, e num banco do jardim,  mesmo à frente do baloiço, estava uma senhora muito triste,  com a cabeça pendida para o colo e não olhava sequer para o canteiro de flores mesmo a seu lado. 
Porque é que a senhora estava triste avó?
Foi isso que a estrelinha perguntou à avó,  mas a avó não sabia. 
E foi perguntar à senhora? 
Não, não foi, mas a estrelinha ficou com pena das duas; da senhora por estar tão triste e por a avó ter ficado também um pouco triste por não saber. 
E depois?
Depois foi então que a estrelinha, já satisfeita de andar de baloiço, se aproximou da senhora triste e como junto do banco o canteiro estava repleto de florezinhas, colheu uma, apenas uma ...
Mas não se pode apanhar flores nos jardins que não são nossos. ..
Pois não,  por isso a estrelinha apanhou  só uma, muito pequenina, para não causar estrago e colocou-a na cavidade da mão,  quase fechada,  da senhora triste, e ficou ali à espera  ...
A flor cheirava bem, avó? 
Cheirava, sim, e a senhora estremeceu um pouco, como se tivesse acordado, olhou para a sua mão  que continha agora uma flor,  que parecia ter-lhe nascido mão. ..
E a avó da estrelinha não se zangou com ela por ter apanhado a flor?
Não.  Apesar de ter quebrado uma regra, por vezes para fazermos alguém feliz,  isso é necessário e  não é assim tão repreensivel. 
E depois? 
Bem, no dia seguinte voltaram ao jardim; viram primeiro, a alguma distância , se a senhora triste estava no parque e viram que sim e pareceu -lhes que não estava tão triste como no dia anterior. 
Porquê,  avó? 
Bem,  a senhora tinha a cabeça erguida e, de quando em vez,  olhava em redor.
Estava à espera que outra menina colhesse outra flor para ela? 
Talvez, e então,  avó e neta foram à florista,  ali mesmo ao lado,  comprar uma flor, que a estrelinha escolheu e ...
Era uma flor bonita,  avó? 
Muito bonita,  um lindo e sorridente girassol!
Ah, também temos no nosso jardim, e é a minha mãe que põe as sementinhas na terra para eles nascerem!
É verdade, têm sempre muitos e bonitos! Continuando, a estrelinha e a avó dirigiram-se para o banco onde estava a senhora,  que quando as viu, mais o girassol, sorriu. Já não estava triste, embora uma lágrima teimosa lhe rolasse pela face.
Porque é que a senhora  chorava? Não gostou da flor?
É que por vezes há lágrimas que há muito tempo estão para se soltar e a tristeza não deixa e que só se soltam quando esta se vai embora. 
E como é que a tristeza da senhora triste se foi embora? 
Porque a estrelinha,  com o seu brilho, o seu gesto espontâneo de lhe oferecer uma flor quando a viu triste, afastou dela a tristeza. 
E depois,  avó? 
Depois a senhora contou que também tinha uma neta que já tinha sido assim como a estrelinha,  mas que quando cresceu se foi esquecendo da avó e era por isso que estava triste. 
Quando eu crescer, avó,  venho à mesma passar férias contigo;  contas-me muitas histórias e depois escrevemos uma história as duas, o avô faz os desenhos e eu pinto. Pode ser, avó? 
Sim,  minha querida,  a nossa história já começou a ser escrita  desde o dia em que nasceste e talvez ainda muito antes. Uma história muito bonita! 

quarta-feira, 15 de julho de 2020


A PEQUENA SEREIA E A ABELHINHA

 Era uma vez uma pequena sereia que vivia no fundo do mar, em companhia das suas irmãs mais velhas, onde as ouvia contar muitas histórias antigas, em que as sereias hipnotizavam os homens com o seu mavioso canto, os quais nunca mais voltavam para  casa; ficavam para sempre nos seus barcos à espera do canto das sereias, quando não eram levados por elas para as profundezas do mar.A Pequena Sereia começou a ficar enfadada com as mesmas histórias: o que ela queria era ir a terra e brincar com uma menina, porque as suas irmãs só falavam de coisas de sereias crescidas e um dia tinha escutado uma conversa secreta, em que falavam de meninas, com duas pernas em vez de cauda de peixe.Um dia, quando as irmãs estavam distraídas a preparar uma festa, a Pequena Sereia atreveu-se a subir à superfície do mar, lugar muito perigoso, onde há barcos e homens que tudo pescam com umas grandes redes, e aí ficam presos peixes, golfinhos e até sereias, atravessem-se elas a lá ir. Mas a Pequena Sereia pensou: vou ter muito cuidado e assim que observar algo de estranho volto imediatamente para as profundezas do mar. Não quero ficar prisioneira dos homens. E assim fez. Um dia, observou que havia muitos peixes, de todas as qualidades e tamanhos, a debaterem-se para se libertarem das redes, mas não o conseguiram. Ainda pensou em prestar-lhes ajuda, mas que poderia fazer uma pequena sereia? E voltou, triste, para as profundezas, onde se sentia tão sozinha e desanimada. Mas não desistiu: iria observar as águas uma vez e outra até conseguir emergir em segurança. Foi o que aconteceu: num belo fim de tarde, chegou à praia, mas deu-se conta de que a única menina que estava na praia estava prestes a ir embora, pela mão do papá e da mamã, que a levantavam no ar de vez em quando, rindo, rindo e a pousavam novamente no chão. A Pequena Sereia ficou ali olhar, melancólica ... até que o trio já ia tão longe e ficaram tão pequeninos … e a menina, ainda mais pequenina, deixou de se ver. Oh, como gostaria de brincar à beira-mar com uma menina com uns caracóis dourados como aquela !... a menina poderia correr na areia, enquanto ela correria a seu lado, na água, e talvez até pudessem nadar juntas ou, simplesmente, chapinhar, divertidas. O sol lançava já os seus longos cabelos dourados sobre a praia, o mar avermelhava, como se lhe tivessem deitado um frasco de tinta vermelha, e a Pequena Sereia, com receio de não encontrar o caminho para casa no fundo do mar, mergulhou e nadou, nadou ...As irmãs felizmente não tinham dado pela sua falta, tão azafamadas estavam. Quantas vezes ainda teria que fazer aquela viagem para encontrar uma menina com quem brincar! 

No dia seguinte madrugou e antes da grande festa foi fazer uma nova visita àquela praia, na esperança de lá encontrar a mesma menina, ou outra, mas encontrou-a ainda deserta.

Sentou-se, cautelosamente, por detrás de uma rocha, a observar as pessoas que chegavam. Bem, havia meninos e meninas que chegavam com os seus papás, mas não lhes tiravam o olho de cima, nem por um minuto.

_ Oh, assim nunca poderei brincar com uma menina, saber como é a vida nesta parte seca do planeta. E ficou triste por momentos, mas eis que uma pequena coisa voadora, fazendo um  zumbido quase inaudível, pousou na rocha, um pouco mais abaixo, e ali ficou, agitando um dos dois pares de  asas de vez em quando, mas como que observando o mar.

A Pequena Sereia, por curiosidade, aproximou-se do insecto que vestia o que parecia uma camisola fofinha listrada de amarelo e castanho escuro e perguntou, quem és tu?

A abelhinha, porque era de uma abelha que se tratava, apesar dos seus cinco olhos, dois à frente e três no topo da cabeça, assustou-se e quis levantar voo, mas a pequena sereia disse: Não te vás embora; preciso tanto falar com alguém diferente de uma sereia ...

A abelhinha, num curto voo, observou a Pequena Sereia, arriscou-se a pousar, primeiro as quatro patinhas de trás e só depois as duas da frente. Também ela gostaria de falar com quem não fosse abelha e disse: Sou uma abelha: trabalho de manhã  à noite.  Sigo ordens rigorosas, por isso também fico contente por encontrar com quem falar e que não seja uma abelha.

A Pequena Sereia ficou muito admirada: Tu trabalhas!? Que trabalho é que um ser tão pequeno como tu, pode fazer?

_ Construo favos, conjuntamente com toda a colmeia, para armazenar mel para alimentar a rainha; contribuo com cerca de cinco gramas todos os dias. Temos que trabalhar com muita rapidez, para encontrarmos pólen e néctar numas dez flores por minuto. Raramente podemos dispôr de escassos segundos para termos o prazer de deslizar pelo cálice de uma flor. Muitas abelhas não chegam a desfrutar uma única vez desse prazer em toda a sua vida.

_Oh … deve ser uma vida muito dura …

_Sim, mas também é doce e bela …

_E que estás aqui a fazer, à beira mar?

_Vês aquela serra lá muito longe, ao fundo? É onde está a minha colmeia … a minha casa … as flores … e donde vejo o mar.

_E quiseste ver de perto o que vês de longe, não foi? Eu gostava de lá ir … parece bonito … mas não posso estar fora de água muito tempo …

_ Se quiseres ir … isso remedeia-se …

_Mas como é que chegaste aqui, se é tão longe do mar …

_Como disseste, é muito longe, especialmente para uma abelha, mas servi-me de um curso de água para cá chegar. Podia ter utilizado o vento, que hoje tem soprado do norte, mas isso seria muito radical, além de que o vento é um elemento da natureza muito volúvel, em que não se pode confiar. Só os entendidos.

_Estou curiosa! Diz-me como é que chegaste aqui.

_Aquela serra tem uma nascente que alimenta uma ribeira que vem desaguar aqui ao mar …

_ Mas tu não podes nadar com as asas, pois não?

_Pois não, por isso servi-me de diversos expedientes: escondi-me num ramo de flores silvestres que uma rapariga foi apanhar lá muito perto das colmeias e assim desci até à ribeira; quando pousou o cesto, onde ficou a fazer um pic nic,  eu aproveitei para voar e pousar num ramo de salgueiro, que por ali vinha vogando, e em folhas que iam sendo arrancadas das árvores fustigadas pela forte ventania e a cada momento caíam na água. Quando alguma ficava retida por caniços, por folhas maiores ou por pedras, bastava-me fazer um pequeno voo, encontrar uma outra que estivesse a deslizar na altura e por entre momentos bons e outros mais complexos aqui estou, realizando o desejo que tinha.

_E sentes-te feliz por isso?

_Bem, agora que aqui estou, vejo que não é um sítio indicado para uma abelha; não iria aguentar muito tempo o marulhar contínuo do mar … os salpicos salgados das ondas … as flores raquíticas … as gaivotas barulhentas e talvez fosse comida por uma … não sei … Na serra o silêncio é cortado pelo cantar de pássaros diversos, as flores são visitadas por uma infinidade de insectos e duma multiplicidade de silenciosas borboletas multicores. No verão é que há muito ruído: as cigarras cantam, incansáveis, e tão alto que chegam a atingir os cem decibéis e os grilos, com o seu inconfundível canto, que produzem com as asas para atrair as fêmeas …

_Já percebi como vieste e como é a serra; agora podes levar-me ver a tua colmeia …

_Hoje posso. E também por essa única razão é que consegui sair do ritmo austero em que as abelhas vivem. É que morreu a Rainha, a responsável pela reprodução dos ovos, que chegam a ser mil por dia e a nova rainha só nascerá amanhã, por isso a colmeia está um caos, e entre umas cinquenta mil abelhas ninguém dará pela minha falta, o que não acontecerá a partir de amanhã, em que tudo volta à antiga e rígida ordem, a menos que a mesma seja destruída neste curto espaço de tempo. por outros insectos que “sentem” a desordem e aproveitam para roubar. Portanto o que vais ver não será o usual … e corres o risco de ser atacada … pensando bem … não é boa altura …

_ Estou a perceber …  mas tenho uma ideia: vou contigo pela ribeira acima, deposito-te lá … e numa próxima oportunidade vou visitar-te …

_Combinado. Mas olha que não vou poder dar-te qualquer atenção …

_E daí, quem sabe? Há sempre tantas surpresas!

 Depois de deixar a abelhinha nas proximidades da serra, a Pequena Sereia, assim que se encontrou de novo na foz da ribeira, procurou o mar mais profundo,  mergulhou e chegou às profundezas, onde a festa estava a terminar e as irmãs já andavam à sua procura, mas assim que a viram ficaram tão contentes que se esqueceram de se zangar com ela.

No dia seguinte só falavam da festa e das histórias de costume. E foi aí que a Pequena Sereia disse que queria contar uma história.

_Que história é que uma pequena sereia como tu, teria para contar? Vai lá brincar …

_Mas eu quero contar uma história!

_Pronto, está bem; mas olha que temos mais que fazer!

A Pequena Sereia contou que tinha visto uma praia,  uma menina de lindos caracóis, conversado com uma abelha e percorrido uma ribeira, mas as irmãs, que só conheciam os homens que encantavam com o seu canto traiçoeiro, não acreditaram em nada e disseram:

_Tiveste um sonho muito engraçado! Agora vai lá mas é brincar …

E a Pequena Sereia lá foi magicar em novas aventuras.

sábado, 11 de julho de 2020

Dois Anos da Estrelinha                              

 

Dois anos

Quanta evolução

Tantas gargalhadas

E brinquedos plo chão

 

Tão divertida

Beijos maravilhosos

Extrovertida

Abraços aos molhos

 

Algum choro

Olhinhos brilhando

Sorriso maroto

Vidas alegrando

 

Dois anos …

O que são?

Correrias loucas!

Uma sedução!

 

12.07.2020

 


domingo, 3 de maio de 2020


NÃO HÁ DIAS DA MÃE

Mãe é a que a todos ama, mesmo quando a natureza, a psique ou fosse lá o que fosse, lhe tenha roubado esse direito, privilégio ou seja lá o for.
Mãe é a que reparte o que tem; é a que rejubila quando observa que os filhos repartem sem que lho peçam.
Mãe é a que ama os miúdos da rua, os ranhosos, os piolhosos, os que lhe quebram os vidros da janela com a bola, os bem comportados filhos do senhor administrador, os seus próprios filhos. Não por esta ordem; que no amar não há ordem; antes desordem.
Ama mesmo os que se riem dela pela sua desordem em amar.
Mãe é também a que não é amada. A que não se importa. Apenas ama, mesmo com letra pequena.

quinta-feira, 9 de abril de 2020



Que filme!


Estou dentro dum filme
Como vim aqui parar?!
Não sei o guião!
Desconheço o tema!

Não me atrevo a sair
Mesmo quando detesto a cena
Estou presa na película

Se dela me descolar
Já me disseram:
Não podes voltar a entrar!

E eu lá vou ficando
Já me aborrece este filme
E mais, de assistir a tantos,
Tantos outros!

Actuo, assisto
Assisto, actuo

Até quando?!



segunda-feira, 6 de abril de 2020

ONDE ESTÁS, ABRIGO DAS TEMPESTADES

Uma serenidade melancólica
Leviana e fugaz
Jubiloso desiderato
De volátil e esquivo pássaro
Em sobressaltos de fogo

Ouvem-se palavras inquietas
Olhos de aço, desconcertantes
Impulsos sem retorno
Silêncios dilacerados
Mares que recusam rios

Onde estás, abrigo das tempestades
Ó luz acetinada e intensa
Temerosa e esquiva sensação
De medo, feito escravo
Em amargo desassossego


2020.04.06 "poema" à toa

sábado, 28 de março de 2020

Tempo de partir

Chegou o tempo de partir:
Duas cargas de livros
Uma garrafeira antiga
Um guarda-roupa modesto
Um quadro lastimoso

A cada esquina há monumentos
Casas de cara lavada
Donde ecoam cantorias
Envelhecidas
Cheias de disparates

Um chafariz seco
Auditórios vazios
Discursos sem cabeçalho
Enredos sem espectáculo
Deleites esquecidos

Brotam gemidos
Do seio da natureza
No espanto das manhãs
Solene escadaria
Duma igreja fechada

Dançarinas impúdicas
Choram nas margens do rio
Comédias esquecidas
Como portas falsas
Elos de cadeia celestial

28.3.2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

Nasceu uma Estrela!

Pois então !
Em 12 de Julho.
Porque não? 
As estrelas não nascem apenas na noite de natal 
Qualquer dia é dia de nascer uma estrela 
E esta nasceu num dia de calor
A bem dizer numa noite de calor
Com o propósito de semear amor

Já fez um ano. Abençoado.
Já teve o seu primeiro Natal
Um Natal com mais uma Estrela
É um Natal mais estrelado!

Desde então
Não há euromilhões
Que não tenham sempre uma Estrela
Uma Estrela que vale não um milhão
Vale milhões!
Inquieta e imprudente paixão
Rio de incêndio
Secreta e profunda
Inconfidências e traição

Poesias brancas e cadentes
Levianas e fugazes
Desvios proibidos
Pensamentos incandescentes

Lembrança incendiada
Inclemente tempestade
Desassossego da alma
Amores de asa queimada

Tédios e desencontros
Olhares que mudam vidas
Vidas que mudam olhares
Sonhados e sem prantos

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A dança tranquila dos bramidos do mar ao fundo
Uma chuva difusa esbate os contornos do caminho

Apetece-me uma chávena de chá
E sinto saudades dos acordes da tua guitarra

A noite traz-me o cheiro da maresia
E por entre os relâmpagos que me incendeiam
Vejo a tua silhueta, como se as forças da natureza
Me quisessem acalmar a nostalgia
Num desmedido espectáculo de folhas
Soltas com letra e acordes
Que o vento forte teima em trazer
De encontro ao vidro da janela
Onde me prosto a iluminar o teu caminho sem regresso