sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

As bolinhas da sorte

 

O homem envelheceu

preso à sorte

ou à sua falta

buscando-a no ecrã da TV

há tantos anos!

 

Tantos projetos

à espera da sorte

o coração quase que pára:

já saíram três bolas

que correspondem

porém

todas as outras falharam

como a sua vida

 à espera da sorte

 que não chega

 

Mas que há-de chegar

 pensa o homem

 suspendendo a vida

 até a próxima tiragem

 

2019

 

 

 

 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

ESTÁS AQUI

Enquanto te escrevo, amor, é como se estivesses aqui.

Enquanto te leio, amor, é como se estivesses a caminho, mesmo que digas o contrário. Dizes-me coisas terríveis para que depois possa apreciar melhor as boas; para lhes dar mais sabor e intensidade, dizes-me tu.

E eu vou acredito-te. Acredito-te sempre.

Quando leio que me beijas, que me abraças, é tudo tão real que não pode deixar de ser magnífico. E repito a leitura e repito e repito até à exaustão. E adormeço. E sonho. E acordo.

Não estás, mas estiveste. Não sofro. Espero-te.

Não me importo que seja uma ilusão. Não me canso de recriar-te mil vezes.

Não me incomoda o silêncio inabalável em que me prostro, embalada pelo fragor do eco da tua voz que escuto na alma e no coração.

Pergunto ao mundo o que é o amor real e verdadeiro; o mundo gagueja tolices. O mundo não sabe.

Não me importo nem me sinto trespassada por essas estranhas inquietudes, nem ardentes convulsões de que falam, à toa.

Escrevo-te.

Leio-te.

Estás aqui. Que mais posso querer, meu amor.

 

A CAPELINHA

Tinha chovido inesperadamente naquele mês de maio. Havia dois meses que o céu não se abria para deitar cá para baixo umas gotinhas de chuva e, sem que de tão grande precipitação se suspeitasse, a gente da aldeia via-se agora inibida de festejar o santo da terra na povoação fronteira, tão perto do olhar e, momentaneamente, impossível de alcançar fisicamente.

 Depois das rezas e procissões em prol da tão desejada chuva, que tanto tardara, chegara por fim, quase que indesejada, se bem que sempre necessária. Necessária e desejada, sim, mas não na véspera da festa da Padroeira.

Quer a pequena aldeia, quer a Povoação, nunca tinham possuído qualquer embarcação para efectuar aquela pequena travessia; mesmo nos invernos rigorosos limitavam-se a esperar que a água pusesse a descoberto, ou pelo mais visível, a pequena ponte que as separava, o que não costumava ir para além de dois ou três dias. 

Logo naquele dia é que não podia ser. Para chegar à povoação, que distava menos de quinhentos metros de chão e um golpe de olhar, teriam de percorrer um caminho de não menos de três léguas, caminho que costumava ficar intransitável depois da chuva pelo menos três dias. A igreja e o adro, ali tão à vista e, todavia, inalcançáveis pelos pés dos habitantes da aldeia. 

Foi então que Teresinha se lembrou das brincadeiras de criança, em que ela e as outras pequenas habitantes da aldeia se entretinham a imitar as procissões da povoação e que levavam tão a sério que quase obrigava a mãe a colaborar na elaboração da santa, feita com sobras de tecido das roupas que a mãe, costureira, sempre guardava mesmo depois de prontas as peças e no corpo das clientes. 

O João, que tinha muito jeito para o desenho e pintura, fora quem desenhara e pintara a cara da santa num quadradinho de pano de subtraído à socapa no estendal. Não tendo podido aproveitar o seu talento em voos mais altos tornara-se um talentoso carpinteiro. E nada do que o cliente pedisse para executar, por mais difícil que parecesse, ficava sem resposta. 

Ora o João era agora o marido da Teresinha e como após a adolescência desta a mãe guardara no sótão restos de brincadeiras e sonhos infantis foi lá que a então rapariguinha, agora mulher, foi encontrar a esquecida Santinha de trapo.

Despiu-lhe a vestimenta, que resistiu a uma cuidadosa lavagem e posterior ferro de engomar e ficou linda e resplandecente como nova. O pano da cara estava já um pouco escurecido pelo tempo, coisa que o seu João resolveria, fazendo nova pintura sobre pano novo e o andor já estava feito e ornamentado na ideia de Teresinha e passá-lo à realidade era coisa de somenos. Tábuas e ripas era o que não faltava na oficina e flores era o que não faltava no jardim.

A notícia de que haveria uma procissão na aldeia alastrou-se pelas casas de toda a vizinhança e todos de imediato começaram a colaborar fosse pela cruz que o senhor Hermínio retirou da parede sobre a cabeceira da cama, onde dormia sozinho, desde o passado inverno que lhe roubara a companheira e o sono, fosse pelas opas, ramos e estandarte que surgiram das mãos da senhora Ermelinda, da Carminha, do Manuel dos Tojos e de outros mais.

Estava tudo pronto e apostos quando o sino da igreja da Povoação começou a tocar e os fiéis saíram à rua em procissão a partir do Adro. Ao mesmo tempo, no lado de cá e de lá, uniram-se as orações e os cânticos e naquele instante ali se formou a ideia para a construção de uma capelinha na aldeia deste lado.

 

DE ESPERANÇAS

 O sol já se tinha posto naquela tarde cinzenta dum outono cheirando a inverno. Caminhava à beira da linha do comboio. A barriga pesava-lhe imenso e as pedras do caminho dificultavam-lhe a marcha. Tinha de andar depressa. O comboio não tardaria a chegar à estação. Talvez viesse atrasado, pensou, esperançosa. Era esperança de mais. Estava de esperanças, diziam-lhe. Esperança de quê, se estava sozinha no mundo. Já não estava propriamente sozinha havia já quase nove meses, esses sim, esperançados de que o fruto, não sabia bem de quê, desistisse e ela ficasse novamente sozinha, que não tinha vida para ser mais do que isso.  Aquela dor nas costas vinha a maçá-la mais desde que se pusera a caminho. Pelo menos descansaria no comboio. Uma dor mais forte fê-la deter-se, dobrar-se e depois agachar-se nas pedras. Tão forte que atirou para o lado a sacola com os parcos pertences para melhor agarrar a barriga. Uma dor maior fê-la soltar um grito que acordaria um gigante se nesse mesmo momento o comboio não soltasse um apito tão estridente quanto o seu grito de aviso à aproximação da estação. Num esforço supremo tentou erguer-se, na intenção de conseguir chegar a tempo à estação onde o comboio, por norma, se demora uns minutos. E tanta força empregou nesse esforço que sentiu como que uma explosão das entranhas. Está chegando, exclamou desesperada nem sabendo se se referia à chegada do comboio ou à chegada dessa coisa.

Entretanto tinha escurecido bastante e um reflexo de luz projetava-se para além da curva, de onde dentro em pouco surgiria o comboio, ainda a passo. À medida que o comboio saía da estação, a luz projetava-se com maior intensidade no espaço à frente dando escassa luminosidade ao "volume" que lhe escorregara de entre as coxas para as pedras. Agarrou-o apressadamente deixando-o escorregar. A viscosidade dessa coisa pareceu-lhe repugnante e quando o comboio surgiu, projetando uma luz intensa que a cegou, quis atirar-se sobre os carris, agarrou na coisa, projetou-a, ainda sentada sobre as pedras, mas não se conseguiu erguer a tempo, tropeçando na placenta, enquanto o comboio soltava novo apito como era habitual ao entrar na larga curva. Ali ficou estendida nas pedras, sem conseguir perceber o que sentia, desejando estar já no outro mundo, ignorando se também para lá se levam as dores. Sentia um enorme cansaço e um grande desejo de dormir, de dormir para sempre.

O frio da noite começava a enregelá-la, quando por ali passou um pastor, com uma única ovelha que tinha ido resgatar ao mato por lhe ter achado falta quando as contou no redil. Levava consigo uma pequena lanterna que não estava ligada por a pilha estar fraca e conhecer bem o caminho, senão quando quase tropeça em algo não fosse a ovelha ter parado. Então, Branquinha, vá lá, que agora não são horas de pastar. E é quando liga a lanterna que se depara com um corpo estendido, que a princípio pretende apenas contornar, pensando tratar-se de algum bêbedo vindo da estação, que por lá havia sempre alguns, saudosos de melhores dias.  Porém o seu ouvido chama-lhe a atenção, não para o que ele julgava ser um bêbado, mas para o lado da linha, parecendo um balido dum borreguito acabado de nascer. Fez incidir a fraca luz da lanterna sobre o pequeno corpo abandonado e ensanguentado. Volta para junto do pretenso bêbedo e depara-se com o vulto duma mulher igualmente ensanguentada. Oh, mulher, então que é lá isso. Quiseste matar-te mais a criança? Olha-o sem saber bem onde está, se a luz da lanterna é a luz a indicar-lhe o céu, ou inferno, sabe lá. _ Vai lá buscar a criança, que agora comboio só amanhã. E ela sem conseguir mexer-se. Ele, habituado que estava a tratar de ovelhas acabadas de parir, foi ele mesmo buscar a criança, deu um nó no cordão umbilical antes que se esvaísse em sangue, pô-lo nos braços da mulher que, entretanto, se erguera um pouco e tirando do ombro esquerdo uma manta que sempre aí usava, lançou-a sobre ambos. _Vamos lá embora, que há sempre lugar para mais um. Ou dois, neste caso.


2018 (??)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

 "Obrigam-nos a versejar, quando o que queremos é poetar"

Obrigada a versejar!
A tanto tenho sido obrigada
Nesta grande encruzilhada
Mas nunca a poetar!
Que se há-de fazer
Se não desencantar
Rimas por rimar
Sem nada contradizer
Se me apetecer cantar
Quadras vou fazer
Para me entreter
E para agradar
Não sei o que dizer
Não é fácil inventar
Mas o que está a dar
É fazê-lo com prazer!
2019-2020
M de J

domingo, 7 de fevereiro de 2021

 







Num silêncio descomunal
a cidade dorme
Vazia de horizontes,
sem rumo nem sentido.
Rugidos ferem corações
apertados no vácuo da solidão.
Inesgotáveis reflexos espelhados
sugam energias, corpos e almas.
Pairam no firmamento
enigmáticas e mudas, perguntas,
Vestígios de vozes ausentes
repelidas e desapossadas
Circunscritas a caminhos absurdos
Impossíveis.
Mistérios perdidos nas distâncias
despidas de respostas, encaixotadas em paradoxos
Acertando e errando, confusas,
em possibilidades desconhecidas.
Estradas infinitas e imensas
perdidas no recorte das ausências
Sem origem nem coragem
desfazem-se, inesgotáveis e impotentes
Na fonte da simplicidade cósmica
E na vastidão da incerteza
Janeiro 2021