A
CAPELINHA
Tinha
chovido inesperadamente naquele mês de maio. Havia dois meses que o céu não se
abria para deitar cá para baixo umas gotinhas de chuva e, sem que de tão grande
precipitação se suspeitasse, a gente da aldeia via-se agora inibida de festejar
o santo da terra na povoação fronteira, tão perto do olhar e, momentaneamente,
impossível de alcançar fisicamente.
Depois
das rezas e procissões em prol da tão desejada chuva, que tanto tardara,
chegara por fim, quase que indesejada, se bem que sempre necessária. Necessária
e desejada, sim, mas não na véspera da festa da Padroeira.
Quer a
pequena aldeia, quer a Povoação, nunca tinham possuído qualquer embarcação para
efectuar aquela pequena travessia; mesmo nos invernos rigorosos limitavam-se a
esperar que a água pusesse a descoberto, ou pelo mais visível, a pequena ponte
que as separava, o que não costumava ir para além de dois ou três dias.
Logo
naquele dia é que não podia ser. Para chegar à povoação, que distava menos de quinhentos
metros de chão e um golpe de olhar, teriam de percorrer um caminho de não menos
de três léguas, caminho que costumava ficar intransitável depois da chuva pelo
menos três dias. A igreja e o adro, ali tão à vista e, todavia,
inalcançáveis pelos pés dos habitantes da aldeia.
Foi
então que Teresinha se lembrou das brincadeiras de criança, em que ela e as
outras pequenas habitantes da aldeia se entretinham a imitar as procissões da povoação
e que levavam tão a sério que quase obrigava a mãe a colaborar na elaboração da
santa, feita com sobras de tecido das roupas que a mãe, costureira, sempre
guardava mesmo depois de prontas as peças e no corpo das clientes.
O João,
que tinha muito jeito para o desenho e pintura, fora quem desenhara e pintara a
cara da santa num quadradinho de pano de subtraído à socapa no estendal. Não
tendo podido aproveitar o seu talento em voos mais altos tornara-se um
talentoso carpinteiro. E nada do que o cliente pedisse para executar, por mais
difícil que parecesse, ficava sem resposta.
Ora o
João era agora o marido da Teresinha e como após a adolescência desta a mãe
guardara no sótão restos de brincadeiras e sonhos infantis foi lá que a então rapariguinha,
agora mulher, foi encontrar a esquecida Santinha de trapo.
Despiu-lhe
a vestimenta, que resistiu a uma cuidadosa lavagem e posterior ferro de engomar
e ficou linda e resplandecente como nova. O pano da cara estava já um pouco
escurecido pelo tempo, coisa que o seu João resolveria, fazendo nova pintura
sobre pano novo e o andor já estava feito e ornamentado na ideia de
Teresinha e passá-lo à realidade era coisa de somenos. Tábuas e ripas era
o que não faltava na oficina e flores era o que não faltava no jardim.
A
notícia de que haveria uma procissão na aldeia alastrou-se pelas casas de toda
a vizinhança e todos de imediato começaram a colaborar fosse pela cruz que o
senhor Hermínio retirou da parede sobre a cabeceira da cama, onde dormia sozinho,
desde o passado inverno que lhe roubara a companheira e o sono, fosse pelas opas,
ramos e estandarte que surgiram das mãos da senhora Ermelinda, da Carminha, do
Manuel dos Tojos e de outros mais.
Estava
tudo pronto e apostos quando o sino da igreja da Povoação começou a tocar e os
fiéis saíram à rua em procissão a partir do Adro. Ao mesmo tempo, no lado
de cá e de lá, uniram-se as orações e os cânticos e naquele instante ali se
formou a ideia para a construção de uma capelinha na aldeia deste lado.