sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

A CAPELINHA

Tinha chovido inesperadamente naquele mês de maio. Havia dois meses que o céu não se abria para deitar cá para baixo umas gotinhas de chuva e, sem que de tão grande precipitação se suspeitasse, a gente da aldeia via-se agora inibida de festejar o santo da terra na povoação fronteira, tão perto do olhar e, momentaneamente, impossível de alcançar fisicamente.

 Depois das rezas e procissões em prol da tão desejada chuva, que tanto tardara, chegara por fim, quase que indesejada, se bem que sempre necessária. Necessária e desejada, sim, mas não na véspera da festa da Padroeira.

Quer a pequena aldeia, quer a Povoação, nunca tinham possuído qualquer embarcação para efectuar aquela pequena travessia; mesmo nos invernos rigorosos limitavam-se a esperar que a água pusesse a descoberto, ou pelo mais visível, a pequena ponte que as separava, o que não costumava ir para além de dois ou três dias. 

Logo naquele dia é que não podia ser. Para chegar à povoação, que distava menos de quinhentos metros de chão e um golpe de olhar, teriam de percorrer um caminho de não menos de três léguas, caminho que costumava ficar intransitável depois da chuva pelo menos três dias. A igreja e o adro, ali tão à vista e, todavia, inalcançáveis pelos pés dos habitantes da aldeia. 

Foi então que Teresinha se lembrou das brincadeiras de criança, em que ela e as outras pequenas habitantes da aldeia se entretinham a imitar as procissões da povoação e que levavam tão a sério que quase obrigava a mãe a colaborar na elaboração da santa, feita com sobras de tecido das roupas que a mãe, costureira, sempre guardava mesmo depois de prontas as peças e no corpo das clientes. 

O João, que tinha muito jeito para o desenho e pintura, fora quem desenhara e pintara a cara da santa num quadradinho de pano de subtraído à socapa no estendal. Não tendo podido aproveitar o seu talento em voos mais altos tornara-se um talentoso carpinteiro. E nada do que o cliente pedisse para executar, por mais difícil que parecesse, ficava sem resposta. 

Ora o João era agora o marido da Teresinha e como após a adolescência desta a mãe guardara no sótão restos de brincadeiras e sonhos infantis foi lá que a então rapariguinha, agora mulher, foi encontrar a esquecida Santinha de trapo.

Despiu-lhe a vestimenta, que resistiu a uma cuidadosa lavagem e posterior ferro de engomar e ficou linda e resplandecente como nova. O pano da cara estava já um pouco escurecido pelo tempo, coisa que o seu João resolveria, fazendo nova pintura sobre pano novo e o andor já estava feito e ornamentado na ideia de Teresinha e passá-lo à realidade era coisa de somenos. Tábuas e ripas era o que não faltava na oficina e flores era o que não faltava no jardim.

A notícia de que haveria uma procissão na aldeia alastrou-se pelas casas de toda a vizinhança e todos de imediato começaram a colaborar fosse pela cruz que o senhor Hermínio retirou da parede sobre a cabeceira da cama, onde dormia sozinho, desde o passado inverno que lhe roubara a companheira e o sono, fosse pelas opas, ramos e estandarte que surgiram das mãos da senhora Ermelinda, da Carminha, do Manuel dos Tojos e de outros mais.

Estava tudo pronto e apostos quando o sino da igreja da Povoação começou a tocar e os fiéis saíram à rua em procissão a partir do Adro. Ao mesmo tempo, no lado de cá e de lá, uniram-se as orações e os cânticos e naquele instante ali se formou a ideia para a construção de uma capelinha na aldeia deste lado.

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