sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

DE ESPERANÇAS

 O sol já se tinha posto naquela tarde cinzenta dum outono cheirando a inverno. Caminhava à beira da linha do comboio. A barriga pesava-lhe imenso e as pedras do caminho dificultavam-lhe a marcha. Tinha de andar depressa. O comboio não tardaria a chegar à estação. Talvez viesse atrasado, pensou, esperançosa. Era esperança de mais. Estava de esperanças, diziam-lhe. Esperança de quê, se estava sozinha no mundo. Já não estava propriamente sozinha havia já quase nove meses, esses sim, esperançados de que o fruto, não sabia bem de quê, desistisse e ela ficasse novamente sozinha, que não tinha vida para ser mais do que isso.  Aquela dor nas costas vinha a maçá-la mais desde que se pusera a caminho. Pelo menos descansaria no comboio. Uma dor mais forte fê-la deter-se, dobrar-se e depois agachar-se nas pedras. Tão forte que atirou para o lado a sacola com os parcos pertences para melhor agarrar a barriga. Uma dor maior fê-la soltar um grito que acordaria um gigante se nesse mesmo momento o comboio não soltasse um apito tão estridente quanto o seu grito de aviso à aproximação da estação. Num esforço supremo tentou erguer-se, na intenção de conseguir chegar a tempo à estação onde o comboio, por norma, se demora uns minutos. E tanta força empregou nesse esforço que sentiu como que uma explosão das entranhas. Está chegando, exclamou desesperada nem sabendo se se referia à chegada do comboio ou à chegada dessa coisa.

Entretanto tinha escurecido bastante e um reflexo de luz projetava-se para além da curva, de onde dentro em pouco surgiria o comboio, ainda a passo. À medida que o comboio saía da estação, a luz projetava-se com maior intensidade no espaço à frente dando escassa luminosidade ao "volume" que lhe escorregara de entre as coxas para as pedras. Agarrou-o apressadamente deixando-o escorregar. A viscosidade dessa coisa pareceu-lhe repugnante e quando o comboio surgiu, projetando uma luz intensa que a cegou, quis atirar-se sobre os carris, agarrou na coisa, projetou-a, ainda sentada sobre as pedras, mas não se conseguiu erguer a tempo, tropeçando na placenta, enquanto o comboio soltava novo apito como era habitual ao entrar na larga curva. Ali ficou estendida nas pedras, sem conseguir perceber o que sentia, desejando estar já no outro mundo, ignorando se também para lá se levam as dores. Sentia um enorme cansaço e um grande desejo de dormir, de dormir para sempre.

O frio da noite começava a enregelá-la, quando por ali passou um pastor, com uma única ovelha que tinha ido resgatar ao mato por lhe ter achado falta quando as contou no redil. Levava consigo uma pequena lanterna que não estava ligada por a pilha estar fraca e conhecer bem o caminho, senão quando quase tropeça em algo não fosse a ovelha ter parado. Então, Branquinha, vá lá, que agora não são horas de pastar. E é quando liga a lanterna que se depara com um corpo estendido, que a princípio pretende apenas contornar, pensando tratar-se de algum bêbedo vindo da estação, que por lá havia sempre alguns, saudosos de melhores dias.  Porém o seu ouvido chama-lhe a atenção, não para o que ele julgava ser um bêbado, mas para o lado da linha, parecendo um balido dum borreguito acabado de nascer. Fez incidir a fraca luz da lanterna sobre o pequeno corpo abandonado e ensanguentado. Volta para junto do pretenso bêbedo e depara-se com o vulto duma mulher igualmente ensanguentada. Oh, mulher, então que é lá isso. Quiseste matar-te mais a criança? Olha-o sem saber bem onde está, se a luz da lanterna é a luz a indicar-lhe o céu, ou inferno, sabe lá. _ Vai lá buscar a criança, que agora comboio só amanhã. E ela sem conseguir mexer-se. Ele, habituado que estava a tratar de ovelhas acabadas de parir, foi ele mesmo buscar a criança, deu um nó no cordão umbilical antes que se esvaísse em sangue, pô-lo nos braços da mulher que, entretanto, se erguera um pouco e tirando do ombro esquerdo uma manta que sempre aí usava, lançou-a sobre ambos. _Vamos lá embora, que há sempre lugar para mais um. Ou dois, neste caso.


2018 (??)

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