DE
ESPERANÇAS
Entretanto tinha escurecido bastante e um reflexo de luz projetava-se para além da curva, de onde dentro em pouco surgiria o comboio, ainda a passo. À medida que o comboio saía da estação, a luz projetava-se com maior intensidade no espaço à frente dando escassa luminosidade ao "volume" que lhe escorregara de entre as coxas para as pedras. Agarrou-o apressadamente deixando-o escorregar. A viscosidade dessa coisa pareceu-lhe repugnante e quando o comboio surgiu, projetando uma luz intensa que a cegou, quis atirar-se sobre os carris, agarrou na coisa, projetou-a, ainda sentada sobre as pedras, mas não se conseguiu erguer a tempo, tropeçando na placenta, enquanto o comboio soltava novo apito como era habitual ao entrar na larga curva. Ali ficou estendida nas pedras, sem conseguir perceber o que sentia, desejando estar já no outro mundo, ignorando se também para lá se levam as dores. Sentia um enorme cansaço e um grande desejo de dormir, de dormir para sempre.
O frio
da noite começava a enregelá-la, quando por ali passou um pastor, com uma única
ovelha que tinha ido resgatar ao mato por lhe ter achado falta quando as contou
no redil. Levava consigo uma pequena lanterna que não estava ligada por a pilha
estar fraca e conhecer bem o caminho, senão quando quase tropeça em algo não
fosse a ovelha ter parado. Então, Branquinha, vá lá, que agora não são horas de
pastar. E é quando liga a lanterna que se depara com um corpo estendido, que a
princípio pretende apenas contornar, pensando tratar-se de algum bêbedo vindo
da estação, que por lá havia sempre alguns, saudosos de melhores dias.
Porém o seu ouvido chama-lhe a atenção, não para o que ele julgava ser um
bêbado, mas para o lado da linha, parecendo um balido dum borreguito acabado de
nascer. Fez incidir a fraca luz da lanterna sobre o pequeno corpo abandonado e
ensanguentado. Volta para junto do pretenso bêbedo e depara-se com o vulto duma
mulher igualmente ensanguentada. Oh, mulher, então que é lá isso. Quiseste
matar-te mais a criança? Olha-o sem saber bem onde está, se a luz da lanterna é
a luz a indicar-lhe o céu, ou inferno, sabe lá. _ Vai lá buscar a criança, que
agora comboio só amanhã. E ela sem conseguir mexer-se. Ele, habituado que
estava a tratar de ovelhas acabadas de parir, foi ele mesmo buscar a criança,
deu um nó no cordão umbilical antes que se esvaísse em sangue, pô-lo nos braços
da mulher que, entretanto, se erguera um pouco e tirando do ombro esquerdo uma
manta que sempre aí usava, lançou-a sobre ambos. _Vamos lá embora,
que há sempre lugar para mais um. Ou dois, neste caso.
2018 (??)
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