sexta-feira, 12 de março de 2021



POEMA MEU

Já não tenho coração
E o intelecto onde está?
Os dois juntinhos dariam um génio
Ou não?

Já não sinto a emoção
Nem o apelo dum amor
Falta-me o desejo de um canto
Dos acordes harmoniosos

Porém, quero sentir harmonia
Como? Sem emoção
Sem amor, sem desejo
Sem música no coração!

Já não sou!
Bocage o disse também
Mas... será que alguma coisa fui?
Ou apenas sou o que sou!


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Uma vida (quase) tão perdida que mais parece nem ter tido início, não fora os azedumes que vai deixando como lastro.

Dá voltas e voltas para encontrar a vida e, decididamente devem ser realmente voltas sobre voltas e daí ver-se sempre no mesmo sítio cada vez mais estgnado, amorfo.

Está farta de saber que não tem que ter medo do medo. Que tem que fazer uma escolha e daí partir para a vida. Não tem coragem? Não, não é só falta de coragem, é mais falta de farol, de modelo. Não sabe decidir, não decide. Fica. Vai ficando, até que um dia fica de todo.



Frequenta cursos ... formações ... Para quê? Não sabe. Diz que é apenas para conhecer. Que um dia verá se lhe interessam. Um dia? Quando? Que vida pensa ela que tem pela frente?



2008? 2011? sei lá


Vários poemas, vários temas


Não sei se tinhas muitas flores;
Tinhas, certamente, muitas
Não quis olhar
Não quis saber do teu fim

Não vi a cor do teu caixão
Estava lá, seguramente,
Um corpo que já ninguém reconhecia
Como sendo teu

Espero que estejas bem agora.
Que te reconcilies com a vida que deixaste

**************

Vês Um coxo
E choras
Vês um cego
E choras
Vês um paralítico
E choras
Vês um louco
E choras

Não é por eles
Que choras

Choras por ti


*********

Não lamentes quem em momento de dor, chorar
Lamenta quem no meio da dor estiver a rir
Quem chora na dor, vive
Quem ri na dor, está a retardar o momento 
Como quem paga uma dívida com juros

********

Em frente à varanda da minha casa
Há um telhado com beiral
Onde pardais e andorinhas
Vêm tagarelar

De telhas outrora vermelhas
Agora marcadas pelo tempo
São verdes, são amarelas
Verdadeiras atracções
Para os pássaros debicarem

******

Com tantos doces, tantos fritos
Tanta bebida licorosa
Vão parar ao hospital
E dizem que foi do natal

******
Mulheres de meia-idade
60, 70, 80 anos
Arrastando a idade
E as peles
E a cor ruiva dos cabelos
Saem da praia
Exibindo a gordura balofa
Das coxas
As veias azuis, violeta
Salientes

Visão que magoa
Nudez que apregoa

 

A SEREIA E O FONTANÁRIO

 

Era uma vez uma Sereia duma incomparável beleza e ainda mais deslumbrante quando o seu vestido de folhos multicores se submetia à intensidade dos raios de sol sempre brincalhões, mas atentos a tanta formosura, de tal modo que a traiçoeira claridade dos dias remetia a mente dos humanos que a avistassem para estranhos mundos impossíveis.

Olhar humano que a vislumbrasse, logo ficaria tomado por uma perigosa loucura: a mais turbulenta e periculosa do mundo, o amor.

Por causa da sua beleza sem par, quando a linda Sereia nasceu, a Bruxa Má que sempre ronda, maldosamente, as novas e prometedoras vidas, tivera tanta, tanta inveja de tamanha perfeição que lhe rogara uma torpe e pesada praga: que a Bela Sereiazinha fosse acometida por uma vergonhosa peçonha chamada preguiça, o que equivalia a uma vida sem graça nem sentido.

Valeu-lhe uma boa e velha Fada Madrinha, que em tempos tinha amadrinhado as suas irmãs e que transmitiu a seus pais o contraveneno que permitiria atenuar os efeitos da nefasta praga:

teria que viver sempre a cantar e banhar-se em água doce pelo menos uma vez por dia.

Ora como é sabido, no mar não há água doce; o mar é salgado. Os pais incentivavam-na a cantar todo o dia já que fora prendada com garganta de prata, donde emergiam melodias ora doces ora arrebatadoras, conforme o que lhe sucedia e, se não fosse essa bênção a pequena Sereia viveria como uma alga, de tanta preguiça de que era acometida.

Viviam os pais consternados e, em noites de lua cheia, dirigiam-se a Terra, em busca de água doce, onde mergulhavam a pequenina para que tivesse uma infância adequada a uma criança, com as suas diabruras.

O tempo passava, célere e, numa noite bem estrelada, a Sereia, já querendo quebrar os laços paternais, partiu para Terra em busca de água doce e fresca e deparou-se com um Fontanário de cujas mãos jorrava água fresca e pura.

A Sereia ficou fascinada pela beleza, frescura e dádiva do Fontanário e usufruiu das águas jorrantes, voluptuosa e demoradamente. O fascínio daquela maravilhosa aparição foi de tal modo magnetizante que, por segundos, reteve as águas em ambas as mãos, logo as desprendendo ainda mais copiosamente, alternando-as com doçura e suavidade, como que a adivinhar os desejos da Sereia.

A magia foi imediata e mútua.

Ao romper do alvor, a Sereia ergueu-se das águas, beijou as mãos do Fontanário e encaminhou-se para o oculto universo daqueles seres.

O velho fontanário, enegrecido pelo tempo, sentiu-se revigorar e naquele dia todos os que por ali costumavam passar e já nem reparavam nele, olhavam agora, com surpresa, a brancura e o rejuvenescimento do mármore brilhante, bem polido

Todas as noites o canto da Sereia pairava por entre o arvoredo que cercava o jardim onde decorria este idílico enlevo e conta-se que quem por ali passasse e a ouvisse ficaria imbuído dum amor daqueles que descontrola a vida dos que o sentem e que não podem mais ser-lhe indiferentes.

Até que uma noite houve uma tempestade medonha e o mar revoltoso, quiçá ciumento, impediu que a bela Sereia se fosse banhar na água doce do Fontanário.

Este, sabedor da maldição que pesava sobre a Sereia, ao ouvir o seu canto lamentoso não esteve com delongas e, já noite dentro, através duma tempestade tenebrosa, dirigiu-se ao mar, ao encontro daquela que as ondas alterosas retinham.

Conta-se que a tempestade foi tão violenta que arrastou o Fontanário para os penhascos junto ao mar, onde a partir de então surgiram na maré baixa Olhos de Água doce, os olheiros onde a Sereia se poderia banhar e cantar, livrando-se assim, para sempre, da terrível e estéril preguiça.

Conta-se ainda que, em noites estreladas ou de luar, os pescadores avisados, evitam passar por ali, não por receio de serem levados pela sereia, mas o de serem arrebatados por um grande amor, que lhes desgoverne mais a vida do que o barco não obedecer ao leme.

Um grande amor não é para os timoratos, mas tão só para os destemidos.

 

 

 

 

sábado, 6 de março de 2021

 Acordei cinzentona

Acordei cinzentona
Tal lobo solitário 
De dentuça arreganhada
Mas sem forças para uivar
Vencido e dormente
Às portas do povoado
Um chamado  tenebroso
Estranho e gélido guardião
De patas trémulas
Acuado
Sem uivo
Sem matilha
Retorna ao silvado
Sozinho no trilho
Sem lugar para chegar
Sem rumo nem ilusão
Vagueia, sem pressa
Velha pelagem
De cão abandonado
Corpo abatido 
Cicatrizes de caçadas 
Açoitado pelo vento
Que ecoa no silêncio
Em busca da lua
Amor impossível
Sem opção
Como um renegado
Que não arrisca
E passa da essência à demência

Mas eis que o sol brilha
Por qualquer motivo fútil
Do cinza me libertei

Admirei a luz
Pareceu-me o paraíso
E parti para mais um dia de labor
Devorada pela manhã
Exorcizando fantasmas aguerridos 
E conquistando a aurora

terça-feira, 2 de março de 2021



O rumor das estrelas 
Harmonioso e ritmado
Muda a luz do  teu olhar
Em ritmo compassado

Rubras nuvens 
Serpentina de arco iris
Agitada e eufórica
Em melodias primaveris

Relâmpagos de lume 
Tempestades matutinas 
Mudam sonhos
E a cor dos teus olhos 

Lagos de águas escuras
Sepultam passados 
Angustiados e vãos 
Em melancólicos crepúsculos

2019.11.04

segunda-feira, 1 de março de 2021


Um olhar canalha
Entre paredes de vidro

Como fogo na palha
Capa de um mau livro

Intrigas
Conspirações 

Entre amigos 
E paixões 

Desabrocham
Entre cães de luxo 

E rãs que coaxam
São flores
Mas não buxo

Entre o fragor da turba
Eufórica e agitada
Há um desvão que perturba
Uma poesia acetinada 



2019.11.02