sexta-feira, 12 de março de 2021

 

A SEREIA E O FONTANÁRIO

 

Era uma vez uma Sereia duma incomparável beleza e ainda mais deslumbrante quando o seu vestido de folhos multicores se submetia à intensidade dos raios de sol sempre brincalhões, mas atentos a tanta formosura, de tal modo que a traiçoeira claridade dos dias remetia a mente dos humanos que a avistassem para estranhos mundos impossíveis.

Olhar humano que a vislumbrasse, logo ficaria tomado por uma perigosa loucura: a mais turbulenta e periculosa do mundo, o amor.

Por causa da sua beleza sem par, quando a linda Sereia nasceu, a Bruxa Má que sempre ronda, maldosamente, as novas e prometedoras vidas, tivera tanta, tanta inveja de tamanha perfeição que lhe rogara uma torpe e pesada praga: que a Bela Sereiazinha fosse acometida por uma vergonhosa peçonha chamada preguiça, o que equivalia a uma vida sem graça nem sentido.

Valeu-lhe uma boa e velha Fada Madrinha, que em tempos tinha amadrinhado as suas irmãs e que transmitiu a seus pais o contraveneno que permitiria atenuar os efeitos da nefasta praga:

teria que viver sempre a cantar e banhar-se em água doce pelo menos uma vez por dia.

Ora como é sabido, no mar não há água doce; o mar é salgado. Os pais incentivavam-na a cantar todo o dia já que fora prendada com garganta de prata, donde emergiam melodias ora doces ora arrebatadoras, conforme o que lhe sucedia e, se não fosse essa bênção a pequena Sereia viveria como uma alga, de tanta preguiça de que era acometida.

Viviam os pais consternados e, em noites de lua cheia, dirigiam-se a Terra, em busca de água doce, onde mergulhavam a pequenina para que tivesse uma infância adequada a uma criança, com as suas diabruras.

O tempo passava, célere e, numa noite bem estrelada, a Sereia, já querendo quebrar os laços paternais, partiu para Terra em busca de água doce e fresca e deparou-se com um Fontanário de cujas mãos jorrava água fresca e pura.

A Sereia ficou fascinada pela beleza, frescura e dádiva do Fontanário e usufruiu das águas jorrantes, voluptuosa e demoradamente. O fascínio daquela maravilhosa aparição foi de tal modo magnetizante que, por segundos, reteve as águas em ambas as mãos, logo as desprendendo ainda mais copiosamente, alternando-as com doçura e suavidade, como que a adivinhar os desejos da Sereia.

A magia foi imediata e mútua.

Ao romper do alvor, a Sereia ergueu-se das águas, beijou as mãos do Fontanário e encaminhou-se para o oculto universo daqueles seres.

O velho fontanário, enegrecido pelo tempo, sentiu-se revigorar e naquele dia todos os que por ali costumavam passar e já nem reparavam nele, olhavam agora, com surpresa, a brancura e o rejuvenescimento do mármore brilhante, bem polido

Todas as noites o canto da Sereia pairava por entre o arvoredo que cercava o jardim onde decorria este idílico enlevo e conta-se que quem por ali passasse e a ouvisse ficaria imbuído dum amor daqueles que descontrola a vida dos que o sentem e que não podem mais ser-lhe indiferentes.

Até que uma noite houve uma tempestade medonha e o mar revoltoso, quiçá ciumento, impediu que a bela Sereia se fosse banhar na água doce do Fontanário.

Este, sabedor da maldição que pesava sobre a Sereia, ao ouvir o seu canto lamentoso não esteve com delongas e, já noite dentro, através duma tempestade tenebrosa, dirigiu-se ao mar, ao encontro daquela que as ondas alterosas retinham.

Conta-se que a tempestade foi tão violenta que arrastou o Fontanário para os penhascos junto ao mar, onde a partir de então surgiram na maré baixa Olhos de Água doce, os olheiros onde a Sereia se poderia banhar e cantar, livrando-se assim, para sempre, da terrível e estéril preguiça.

Conta-se ainda que, em noites estreladas ou de luar, os pescadores avisados, evitam passar por ali, não por receio de serem levados pela sereia, mas o de serem arrebatados por um grande amor, que lhes desgoverne mais a vida do que o barco não obedecer ao leme.

Um grande amor não é para os timoratos, mas tão só para os destemidos.

 

 

 

 

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