A SEREIA E O FONTANÁRIO
Era uma vez uma Sereia duma incomparável beleza e ainda mais
deslumbrante quando o seu vestido de folhos multicores se submetia à
intensidade dos raios de sol sempre brincalhões, mas atentos a tanta formosura,
de tal modo que a traiçoeira claridade dos dias remetia a mente dos humanos que
a avistassem para estranhos mundos impossíveis.
Olhar humano que a vislumbrasse, logo ficaria tomado por uma
perigosa loucura: a mais turbulenta e periculosa do mundo, o amor.
Por causa da sua beleza sem par, quando a linda Sereia nasceu,
a Bruxa Má que sempre ronda, maldosamente, as novas e prometedoras vidas, tivera
tanta, tanta inveja de tamanha perfeição que lhe rogara uma torpe e pesada
praga: que a Bela Sereiazinha fosse acometida por uma vergonhosa peçonha chamada
preguiça, o que equivalia a uma vida sem graça nem sentido.
Valeu-lhe uma boa e velha Fada Madrinha, que em tempos tinha
amadrinhado as suas irmãs e que transmitiu a seus pais o contraveneno que
permitiria atenuar os efeitos da nefasta praga:
teria que viver sempre a cantar e banhar-se em água doce
pelo menos uma vez por dia.
Ora como é sabido, no mar não há água doce; o mar é salgado.
Os pais incentivavam-na a cantar todo o dia já que fora prendada com garganta
de prata, donde emergiam melodias ora doces ora arrebatadoras, conforme o que
lhe sucedia e, se não fosse essa bênção a pequena Sereia viveria como uma alga,
de tanta preguiça de que era acometida.
Viviam os pais consternados e, em noites de lua cheia, dirigiam-se
a Terra, em busca de água doce, onde mergulhavam a pequenina para que tivesse
uma infância adequada a uma criança, com as suas diabruras.
O tempo passava, célere e, numa noite bem estrelada, a Sereia,
já querendo quebrar os laços paternais, partiu para Terra em busca de água doce
e fresca e deparou-se com um Fontanário de cujas mãos jorrava água fresca e pura.
A Sereia ficou fascinada pela beleza, frescura e dádiva do Fontanário
e usufruiu das águas jorrantes, voluptuosa e demoradamente. O fascínio daquela
maravilhosa aparição foi de tal modo magnetizante que, por segundos, reteve as
águas em ambas as mãos, logo as desprendendo ainda mais copiosamente,
alternando-as com doçura e suavidade, como que a adivinhar os desejos da Sereia.
A magia foi imediata e mútua.
Ao romper do alvor, a Sereia ergueu-se das águas, beijou as
mãos do Fontanário e encaminhou-se para o oculto universo daqueles seres.
O velho fontanário, enegrecido pelo tempo, sentiu-se
revigorar e naquele dia todos os que por ali costumavam passar e já nem
reparavam nele, olhavam agora, com surpresa, a brancura e o rejuvenescimento do
mármore brilhante, bem polido
Todas as noites o canto da Sereia pairava por entre o
arvoredo que cercava o jardim onde decorria este idílico enlevo e conta-se que
quem por ali passasse e a ouvisse ficaria imbuído dum amor daqueles que
descontrola a vida dos que o sentem e que não podem mais ser-lhe indiferentes.
Até que uma noite houve uma tempestade medonha e o mar revoltoso,
quiçá ciumento, impediu que a bela Sereia se fosse banhar na água doce do Fontanário.
Este, sabedor da maldição que pesava sobre a Sereia, ao
ouvir o seu canto lamentoso não esteve com delongas e, já noite dentro, através
duma tempestade tenebrosa, dirigiu-se ao mar, ao encontro daquela que as ondas
alterosas retinham.
Conta-se que a tempestade foi tão violenta que arrastou o Fontanário
para os penhascos junto ao mar, onde a partir de então surgiram na maré baixa
Olhos de Água doce, os olheiros onde a Sereia se poderia banhar e cantar,
livrando-se assim, para sempre, da terrível e estéril preguiça.
Conta-se ainda que, em noites estreladas ou de luar, os
pescadores avisados, evitam passar por ali, não por receio de serem levados
pela sereia, mas o de serem arrebatados por um grande amor, que lhes desgoverne
mais a vida do que o barco não obedecer ao leme.
Um grande amor não é para os timoratos, mas tão só para os
destemidos.
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