segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

 

ME

 

Entardecem-me as palavras

   Vestidas de esquecimento

Encrespa-se-me o mar

   Ofuscado de estrelas

Encurva-se-me o caminho

   Povoado de sobressaltos

Encandeia-se-me o tempo

   Orvalhado de sóis

Alumia-se-me o silêncio

   Acorrentado a migalhas

Ensombreiam-se-me os passos

   Recolhidos na noite

Arremessam-me uma pedra

   Estrangulada de sílabas

Separam-me dos teus olhos

   Prometidos em abraço

 

PALAVRAS EM VENDAVAL

 

Entre montanhas e penhascos

Seguras o mundo com os pés

Metidos em rochas nuas nunca calcadas

Buracos de lua apagada

No espírito fugaz do tempo

 

Atalhos armadilhados de tempestades

Barcos afundando no rio

Afogam fagulhas de saudade

Em silêncios despedaçados

Medem distâncias imensuráveis

 

Palavras em vendaval uníssono

Cantam orvalhos amargurados

Em gotas de friagem dissipada

Fantasmas desassombrados pela noite

Brilham em centelhas de correntes

 

Viajantes arrepiados em pó de ouro

Esculpem diamantes com perícia

Equilibrados numa corda da via-láctea

 Ambicionam um rebanho de fofas nuvens

Para desvendar a poesia das palavras inquietas


sexta-feira, 29 de julho de 2022

 

 

FOI UM ENGANO

 Quem foi que me disse para realizar grandes proezas?

 Quem foi?!  Quem foi?!

 Ah, ninguém se acusa?!

 E eu, que não prestei atenção, já não sei quem foi …

 Mas que disse … disse!

 

 E agora?

 A quem devo inculpar, se tanto tentei realizar e proeza não consegui?!

 Estava enganada;

 Fiquei cansada para nada.

 Afinal não era preciso.

 Bastava viver. E nada mais, que já é tanto!

 

 E agora?

 Estou velha para aprender!

 Como poderei morrer sem ter aprendido a viver?

 Ah, que vida desperdiçada!

 Foi um engano.

 Mais nada.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

 

RAÍZES E CIRCUNSTÂNCIAS

Circunstâncias tolas e fogazes

Destroem margens e correntes

Rios insensatos de sentimentos reprimidos

Invadem vastos invernos

E transbordam em primaveras

 

Raízes entrançadas de espuma

Entorpecem em abraços inquietos

Inconfessados lirismos sombrios

Enquanto risos estridentes

Ferem como palavras empedradas

 

Polémico ambiente musical hipnotizante

Infiltrado de invisível realidade

Constrói românticos fantasmas imagéticos

De vozes desoladas e perdidas

Por entre a densidade de ausências

E esboços de desertos

segunda-feira, 11 de julho de 2022

 

 ENTRE SOPROS E ESTILHAÇOS

 

Um sopro de verdade

Entre clemência e justiça

Palavras de ilusão

Consciência e intenção

 

Passados quebrados

De vidas emprestadas

Em filosóficas fusões

Espectros de civilizações

 

Felino abandonado e ferido

Errante em floresta de sombras

Escuta a folhagem, sem confusão

No sussurro da vegetação

 

Treme-lhe o peito

Acorda-lhe a alma

Ilumina-se a desilusão

Em épica profusão

 

As árvores despem-se

Os mastros vergam

Mergulha a cidade na escuridão

E dois assobios ecoam na multidão

 

Tolhem-se os fracos

Em pretéritos cruéis

E doidas visões

Em implacáveis perdições

 

Vacila

Hesita

Entre perturbações

E sensações

 

Estilhaços e desabraços

sábado, 9 de julho de 2022

 NADA … SEM TI

 

Sapatos sem dono

Camisas sem abraços

Calças sem pernas

Botões sem abrigo

Lenços sem brisa

 

Varandas sem vista

Cozinhas sem fogão

Mesas sem pão

Cadeiras sem pés

Livros sem palavras

 

Janelas sem cortinas

Chão sem passos

Pássaros sem canto

Madressilvas sem flor

Olhos sem meiguice

 

Ventos sem murmúrios

Distâncias sem fim

Perfumes sem aroma

Astros sem luz

Borboletas sem asas

 

 Violinos sem cordas

Rios sem pontes

Quadros sem cor

Luas sem luar

Figuras sem sombra

 

Espelhos sem reflexos

Praças sem gente

Navios sem leme

Mares sem fundo

Jardins sem flores

 

Corpos sem alma

Mãos sem ternura

Desejos sem amor

 

Nada …

Sem ti!

 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

 

 O HOMEM 

 

Pálido e sereno dia platinado

O sol, preguiçoso, foge ao brilho do orvalho

O homem, trémulo, em passos lentos e graves

Pensa em deuses desterrados, em vidas distantes

Sem nada nas mãos entorpecidas que já seguraram louros

 

Senta-se ao sol sem brilho e sem cor

Varre da alma memórias esculpidas pelo tempo

Sombras de noites antigas, anteriores a tudo

Encobrem amores, ecos de glórias, riquezas tantas

Numa solene consciência de repetidos outonos

 

Deslembrou velhos desejos, horas furtivas que não tornam

Indiferente às plantas ainda floridas que já não olha nem vê

Como se tempo, vida e morte fossem uma só

Imutáveis no eterno ciclo infindo, clausura imemorável,

Folhas caídas no inverno que não tarda, inclemente.

 

2021.12.22

segunda-feira, 4 de julho de 2022

 

BEIJO CAÍDO

 

Beijo atirado na palma de uma mão

Pousa, de rosto em rosto,

Desejos de loucura

Hipóteses de coragem insana.

Alguém duvida, e exclama: Não!

 

Momentos de acaso e sofreguidão

Minutos inteiros passam, mudam

Pautas de música em cadeia

Olhares grávidos de prosa

Suaves delírios de aceitação

 

Compôr um grito floreado em clarão

Frágil poesia de um presente aberto

A preceito vestido, sorriso perverso

Gigantes em desvaneios coloridos

Despertam, assombrados, sem razão

 

Sonhando falsidades e desilusão

Doido em busca de lucidez

Passeia-se entre abismos e vales sagrados

Com genial e sábia consciência

Desiludido, cai o beijo ao chão …

 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

 

SONHOS MATUTINOS

 

Sonhos em movimentos pendulares

Formam realidades com desenhos floridos

Ao ritmo de notas do tocador de flauta

E, em sequência abrupta,

Bebem-se passos pela noite exauridos

 

Acendem-se mãos em cânticos

Olhares recolhidos em orações

Buscam-se horizontes esquecidos

Em linhas de luz e vozes de memórias

Errando entre certezas e hesitações

 

Alegrias perdidas em tempestades

Extasiam-se em caminhos desandados

Clarões de dias pungentes

Almas acordadas em sobressalto

Por entre relógios desacertados

 

Paisagens perfumadas de silêncios

Soltam delírios e flexas assombradas

Em fascínios de fogueiras e fulgores

Murmúrios palpitantes de orvalho

Aquecem, e desafiam, a solidão da noite.

 

É já manhã!

Procuram-se sonhos matutinos!

sábado, 14 de maio de 2022

 

MIGUEL OU DOM QUIXOTE

 

Nem ele mesmo saberia quem era.

Tempos havia que se dissera Cervantes

_D. Quixote? Perguntaram-lhe?

Tinha, pelo menos, uma triste figura.

Irritado, respondera:

_Não! Miguel de Cervantes Saavedra!

 

Sentado nos degraus da praça

Ao lado uma sacola com papéis e jornais

Afiava, com a navalha,

Um a um, um molho de lápis em fim de vida

Sacava de uma folha amarrotada e escrevia.

 

O vento soprava forte, desrespeitoso

Subtraiu-lhe, por entre os dedos finos e um pouco trémulos,

A folha amarelecida como a das velhas árvores circundantes

E leu-se, algures:

“Perdi tempo a lutar contra moinhos de vento;

Perdi a vida amando em silêncio”.

 

Talvez não fosse D. Quixote

Talvez fosse Miguel

E sentisse como Cervantes!

quarta-feira, 11 de maio de 2022

 

MUNDOS PARALELOS À DERIVA

 

Para que quererias dividir o átomo?

Dividiste o teu pão?

Ou contentaste-te com partículas?

 

Toma-se um café desconhecendo as leis da física

Gigantescos aceleradores assustam-nos

Quarks e gluões

Geram massa sem possuírem massas

Como bancos falidos sempre em alta

 

Complexas teorias semióticas

Geram tecnologia e novas concepções

Entre doutrinas e métodos

Formulações em ciências exactas e naturais

Cibernética e que mais

 

Incertezas e contradições

Astrofísica fascinante

Decifra invisíveis universos

Telescópios apontados a outros mundos

Pegadas des-humanas em exoplanetas

 

Sondas e foguetões

Sinfonias expectrais

Espreitam imortalidades interestelares

Improváveis organismos extramófilos

Em insólito vermelho ogival

 

 

Espirais fragmentadas

Por naves reutilizáveis

Desenterram passados sem terra

Probalidades e relatividades

Nos confins do universo

 

O homem comum engole a angústia

Com uma garrafa de solidão

Em frente à tabela periódica

Onde assiste à guerra

Ao lado de armas enferrujadas

Num impossível mundo de terráqueo

 

 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

 

SILÊNCIO E LUZ

 

Silêncio e luz;

Depois de um grito de cigarra

O galopar das nuvens

O perfume das plantas campestres

O pincel molhado do pintor

A superfície polida de um lago

 

Quem escutará este silêncio?

Quem guardará esta luz?

 

Triângulos de terra vermelha

A felicidade na memória dos lírios

A surpresa de um mundo que recomeça

Em vidas consumidas como brasas

 

É tempo de regresso

A chave na fechadura

As mãos nas algibeiras

 

E a noite cai, absoluta

Entre sonhos invisíveis

Como morte embriagada

 

26.04.2022

segunda-feira, 18 de abril de 2022

 NUNCA FUI NINGUÉM

Não fui à guerra
Não defendi grandes causas
Não matei ninguém para livrar a humanidade de males maiores
Não salvei ninguém de holocaustos,
Nem sequer de se afogar ou de ser atropelado por um camião
Nem ao menos resgatei um cão da vadiagem ou da fome
Não orientei um cego nem aliviei um coxo
Não doei sangue nem medula óssea, muito menos um rim ou o coração
Não fui bombeiro, nem enfermeiro nem defendi inocentes
Não protegi espécies em extinção
Não dei prazer a qualquer mulher. Nem a homem sequer.
Não fiz milagres nem descobri remédios miraculosos
Não fiz rir, e talvez, nem chorar
Não pintei belos quadros nem escrevi bestsellers
Não compûs sonatas nem cantei operetas
Não construí nem destruí cidades
Não fui banqueiro nem ladrão
Quem fui eu, afinal?
Ninguém!
Como tanta gente!

sexta-feira, 11 de março de 2022



O Papagaio da D. Conceição

O Papagaio da D. Conceição avisa-o sempre quando o caminho não está livre. Nada melhor do que um marido avisado. Lá diz o velho ditado: marido avisado vale por dois.
Na primeira vez que o papagaio o avisara, não fizera caso; não lhe conhecia a língua, não soubera decifrar o código.
Entrara em casa com a ligeireza que lhe era habitual; antes o não tivesse feito: ainda vislumbrou um vulto de duas pernas, por sinal compridas, a esgueirar-se pelas traseiras. Dera meia volta, para “arrefecer” e fingira ter esquecido o telemóvel no carro.
Durante alguns dias o Papagaio “falou” com a normalidade que lhe era habitual, ao fim dos quais voltou a lançar-lhe o aviso.
Agora, de sobreaviso, deu meia-volta, olhou o relógio: dar-lhes-ia meia hora.
Uma meia-hora bem folgada. Nada de aviso por parte do Papagaio. O caminho estava livre.
A mulher tinha as faces rosadas e os lábios, mais brilhantes e carnudos, desenhavam um suave e terno sorriso. Bem-disposta.
Não tardaria a saborear um manjar bem apaladado, sentado à mesa de costume, agora embelezada com uma rosa escarlate ao centro.
Quem não desejaria chegar a casa e ter à sua espera uma mulher assim! Basta estar atento ao código dos pássaros.