sexta-feira, 26 de novembro de 2021

 

Frágil embarcação

 

Frágil embarcação para atravessar

O vasto rio da ignorância

E deitar a afogar a ganância

 

Toda uma vida

Para empreender ou consumar a travessia

Alcançar a outra margem

E libertar-se  do sofrimento

 

É ainda muito jovem;

Desconhece de que é constituída a embarcação

Uma vida inteira golpeada

Por toda a espécie de flechas

De desejos, de medos, de doenças

De envelhecimento e de morte

 

Porém, deixou de se interrogar

De procurar a essência que sana,

Ou minimiza, as chagas

De tão delicado barco

Como o é a vida humana.

 

Que contenha a consciência de que, agarrá-lo,

Como se fosse a própria felicidade,

É a base do medo e do sofrimento

 

Não se pode agarrar a embarcação

Que nasceu para navegar

Transportando a caixa de cada um;

Não a de Pandora,

Onde ficou a esperança prisioneira,

Apenas, e tão somente, a sua,

A da humanidade

terça-feira, 2 de novembro de 2021

JULIANA

                                                            JULIANA

Meados do século XIX. As margens da foz do rio Arade, Vila Nova de Portimão e Ferragudo, namoravam-se à distância, com pequenos e breves beijos na ponta dos remos das barcaças que faziam a travessia de gentes, mercadorias e animais. Juliana, moradora na povoação de Ferragudo, vendia, entre outros produtos artesanais, vassouras de palma que colhia da palmeira-anã, ou palmeira das vassouras, desencantadas por entre rochas e matagais, deslocando-se na barcaça que unia as margens, para mais facilmente encontrar compradores nas feiras e mercados de Vila Nova de Portimão.

Vivia pobremente, como todos os que nada tinham de seu. A bem dizer, o seu homem já tivera algo de seu, um bote herdado do pai, com o qual garantira durante anos a sobrevivência da família, até que, quis o destino, numa madrugada janeireira, uma repentina tempestade, cruel e arrebatante, coadjuvada por ventos fortes do sul decididos a exterminar os algarvios, o tenha desfeito contra uns rochedos, onde, outrora, algo semelhante terá sucedido a Fenícios, Cartagineses e Romanos, e, todavia, ele se tenha salvo, por milagre, que sempre os há. Fora-se o instrumento de trabalho, mas tinha dois braços.  O trabalho era escasso, pouco menos que miséria, não fossem as vassouras.  Ainda estava a dever ao Calafate uma parte da reparação do último, melhor dizendo, do penúltimo rombo na embarcação e ainda lhe parecia uma trágica mentira, ter-se deixado tragar por um ímpeto da natureza. Sentia uma espécie de pedregulho na garganta e quase desejava ter sido ele a ir-se, em vez do bote, que estimava tanto ou mais do que a mulher e os três garotos. Fora pela família que sobrevivera, qualquer coisa lhe soprara que não se deixasse arrastar pelos açoites enfurecidos do mar, lutasse. Que seria deles se também lhes faltasse ...tão pequenos ... e a mulher, aquela menina de olhos meigos e pupilas sonhadoras, que conhecera numa noite de baile de São João e a quem prometera casar pelo Santo António do ano seguinte. Assumira esse compromisso com honra e coragem para construir um pequeno lugarejo onde começar a vida. Por um atraso burocrático, não casaram no dia combinado, mas pelo São João, aniversário do início daquele futuro.

Sentia a falta do pegadiço do sal nas mãos, não podia ficar de braços cruzados, era em terra que tinha que buscar o pão. Mas onde, se a fome alastrava os campos perante uma seca seguida de umas chuvas desproporcionadas, fora do tempo, que destruíram as culturas. Ainda muito jovem, fora fazer a ceifa para o Alentejo, mas com aquelas calamidades, não era um ano propício para lá voltar: muitas eram as searas estragadas. Falaram-lhe que na Andaluzia o tempo não fora tão hostil. Juntou-se a outros espoliados da sorte, ainda piores do que ele, que nascidos servos, servos permaneciam. Iria voltar para reconstruir a vida e a sua independência: um outro bote.

Enquanto não regressasse as crianças precisavam de se alimentar e nem sempre havia compradores para as vassouras de Juliana. Outras vendiam-nas mais baratas, viviam no lado de lá, não precisavam ir ao Largo da Barca e pagar ao barqueiro. Mas o mais abominável foi o dia em que o barqueiro era um malvado mastodonte, de satânicos olhos azuis, de certo descendente de algum cruzado das terras do Norte, recrutado entre os assassinos que arrasaram Alvor, até não restar vivalma passada a fio de espada, no séc.XII. Juliana foi acometida por enorme pavor porque nada vendeu e voltou vazia de bolsos. Mesmo prometendo pagar no dia seguinte, nada demoveu o monstro infrene: exigiu o pagamento na hora, ali mesmo atrás de uma moita. Havia quem pagasse com uma medida de grão ou de feijão, mas Juliana só podia pagar com artigos de palma, que, dizia ele, já ter demais.  Resistiu, quis gritar, mas ficou com os ossos quase partidos que lhe custou uma semana de inactividade, os filhos sem comer, vendo-os fazer bolinhos de terra com que enganavam a fome.

 Má sorte, achou-se grávida. Não sabia se era do marido. Temia que lhe nascesse um ser diabólico, sanguinário, de olhos azuis. Passou meses a fio em agonia permanente, mesmo depois do nascimento não sabia se aquele azulado das pupilas se tornaria escuro como acontecera com os outros filhos; que era do leite, diziam, depois escurecem. Sempre assim acontecera e agora... os meses passavam devagar, torturantes, e por fim descansou: a menina tinha olhos escuros, embora de pele mais clara. Era uma menina, desculpava-se, sem saber de quê.

Mas há dias em que se escutam coisas, na taberna, que se preferia morrer a ouvi-las: uma tirada mordaz: se a menina tinha olhos azuis ou castanhos. Foi o bastante para o marido de Juliana perceber, conhecendo a fama de certo barqueiro. Não, não iria construir um bote. Tampouco interpelou Juliana; que culpa tinha ela, se a deixara sozinha na mira do dinheiro para o barco, para voltar a ter vida e dar de comer à ninhada. Naquela hora, de que o ditado fala pela voz do povo, "em má hora não ladra cão", não pensou na filharada. Foi um momento de egoísmo em que colocou a sua e apenas a sua honra acima de tudo, até da própria vida, sem ter em conta que a honra nos pobres é um luxo, e que sabia ele de luxos. Os penhascos para onde a borracha tinha atirado e destroçado o bote, sua fonte de vida e da família, foram os mesmos que lhe serviram de tumba. 

Juliana não chorou, não gritou, não mais calcorreou matagais e rochedos em busca de palma, não mais produziu nem vendeu uma vassoura, tão pouco o chão da casa jamais viu vassoura nas suas mãos. Um molho delas, por vender, jazia a um canto, resignadas.

Todos os dias, sobre um rochedo, ficava de olhar fixo nos penhascos e na espuma branca pulverizada, talvez sem nada ver, a menina no regaço, o peito fora da blusa negra, a criança chupava, adormecia e chorava quando já não havia réstia de leite para sugar.

 A gaiatada, mimosa, descalça e fundilhos remendados, a lambuzarem-lhe a saia preta, acompanhava-as, mas logo partia, em bando, estendendo a mão pelas ruas e caminhos, por um pedaço de pão. Juliana regressava a casa ao último raio de sol, deitava ao lume uma panela com água e algumas ervas colhidas pelas veredas, todos bebiam numa sofreguidão e adormeciam num sono agitado de estômago insatisfeito, para na manhã seguinte voltar a montar sentinela em frente aos penhascos. 

Num dia em que a menina, no seu regaço, não parou de chorar, o peito seco, ao anoitecer regressou a casa como de costume, com a criança esquelética e faminta nos braços e um ramo de folhas diferente na mão, deitou a panela com água ao lume e acrescentou-lhe as folhas. As crianças reclamaram que o caldo estava amargo, mas em vez de açúcar tinham fome e um caldo quente sempre conforta o estômago. Nessa noite, o conforto foi diferente.

Dias depois, numa só tumba, numa só campa, foram a sepultar cinco seres a quem tudo faltou, excepto a fome e o infortúnio. 

Vendesse Juliana vassouras em Vila Nova de Portimão em 1876, não teria precisado de barqueiro para voltar para casa e dar de comer aos filhos: partiria de Ferragudo a pé, percorreria os 332 metros de ponte rodoviária, que unira, finalmente, as margens e inaugurada nesse mesmo ano, venderia, ou não, alguns artigos de palma, faria o caminho de regresso e, salvo alguma partida do destino, chegaria a casa sã e salva. 

Juliana, poderia ter assistido à inauguração, e rejubilado com o gentio de ambas as margens, acompanhada pelo marido de peito apolíneo de homem dos mares, rodeados pelos filhos e mesmo no ano anterior, só por curiosidade, poderiam ter tido acesso temporário a certas partes da ponte já concluídas, no âmbito dos festejos do Entrudo.   

Ao que parece, as pontes não servem apenas para unir margens: quer existam, quer não, as pontes contam histórias, que só são trágicas ou felizes quando são reais. Juliana é, nesta história, a ponte. Entre o que quer que seja.

 

 

terça-feira, 27 de julho de 2021

 

AS TRÊS INCERTEZAS
Era uma vez, três incertezas que sonhavam libertar o mundo brutal, enquanto esperavam, à janela, as icónicas frases que ocorriam, mimadas e sonantes, ao final do dia.
As três incertezas analisavam conflitos existenciais andando por toda a parte como fadas ilusórias que acordassem numa estranha praia durante um temporal.
As três incertezas escalavam arrogantes descaminhos disfarçados de simbólicos infernos, buscando cérebros, e bocas sem bigode, que libertassem pássaros agrilhoados.
As três incertezas tomavam pequenas, mas fortes asas, adaptadas a pensamentos falhos de contidas alegrias ao abraçar pálidos outonos.
As três incertezas espantavam infelizes e sonhadores índios, brilhando na amargurada imaginação das areias sonantes dos desertos da loucura.
As três incertezas contavam com simbólicas forças para desenrolar o mundo preso a desconhecidas, mas caprichosas, ideias de crueldade.
As três incertezas espalhavam longos e serenos abraços, livres do fogo azul da trágica paixão, e alegravam-se na tormentosa diversidade das pequenas recompensas dos génios das velhas e repetidas histórias
As três incertezas cogitavam reunir certos peixes chamados Júlia, em torno da fina música de caprichosas abelhas, expulsas da colónia.
As três incertezas esperavam, indecisas, que manifestas filhas de algum romance aberto no tempo do drama sem limite de páginas nem espaço, tal invasão num dia de ideias ao ritmo da diversidade dos seres, puxassem um único e invisível cordelinho e desatassem o mundo, que cairia, em pose fetal, no jogo dos seus braços.
As três incertezas criavam manifestações de lugares, com largas portas de alegria bastante para infâncias sem negruras, sem casacos apertados nem trilhos de terra sulcados de esqueletos de macacos.
As três incertezas afirmavam, incertas, possuir muito mais claras e obscuras incertezas para além da medíocre e ressequida armadura revelada à luz fosca de um sol sombrio e aberto às falhas de altas e divinas indecisões.
Um dia, as três incertezas viram-se cerceadas, sufocadas, armadilhadas, por tantas e tão incertas certezas, que, na incerteza da certeza, sumiram, num mundo brutal, enredado, atado, preso para sempre às perpétuas certezas incertas.
Não há Vitória. Não acabou a história. Porque as três incertezas andam por aí, em parte incerta, como convém às incertezas incertas.
2021.07.03
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segunda-feira, 24 de maio de 2021

 

 

UM AMOR QUASE REAL

 O ano agrícola de 1897 estava a ser terrível, em virtude da secura de um longo estio, causando falta de trabalho, o que se refletia em miséria por todo o Algarve. Como reflexo da crise económica da região, entre outras dificuldades contava-se também a que acontecia com o escoamento da produção vinícola de Lagoa, uma das suas produções agrícolas mais características e de peso na economia do concelho.

Que ano aquele que o Rei de Portugal, D. Carlos I, tinha escolhido para visitar oficialmente o “Reino dos Algarves”, com sua Augusta Esposa, a Rainha D. Amélia!_ exclamava Afonso para si mesmo.

Se havia mais de três séculos que nenhum rei visitava a região e nem mesmo seu pai, o rei D. Luís tinha tido a deferência de o fazer aquando da inauguração do Caminho de Ferro nesta província em 1889, havia já oito anos, também podia ter esperado por melhores dias;  mas não. E aí estava ele!

Em setecentos anos, só oito reis terão vindo ao “Reino Sulino”, mas o que consta é que D. Carlos costuma navegar pela costa algarvia,  fazendo estudos oceanográficos ou, quem sabe, em busca de um tesouro que salve este país das dívidas e o povo das agrumas da fome. O certo é que parece interessar-se mais pelo fundo do mar do que pelo governo da terra. E dizem até que é amigo dos pescadores que costuma encontrar, nessas andanças, à pesca do atum que gosta de ficar a observar, a ponto de o tratarem por Carlinhos e lhe  oferecerem um cão d´água algarvio, uma raça de cão de trabalho, parceiro dos pescadores desde tempos imemoriais.

Enquanto Afonso assim cogitava no que ouvira do Padrinho nos últimos dias, a Vila andava numa roda viva com o que, apesar de tudo, considerava ser uma honra e um privilégio: a passagem da comitiva régia, nesse dia, 14 de Outubro; era a colocação da faixa com a frase “Vivam Suas Majestades”, era a escolha das colchas de damasco ou de tecido adamascado que iriam ser colocadas nas janelas e varandins dos edifícios que ficavam no percurso régio, eram uns pequenos retoques na caiação exterior, os arcos floridos, os balões, os festões torcidos a alecrim, e mais um cem número de pormenores que podiam marcar a diferença para melhor, no acolhimento régio, em relação a outros concelhos, sobretudo numa época pouco oportuna para festejos. A excitação geral era de tal ordem que alguns membros da comissão organizadora da recepção real quase não dormiam, para que tudo decorresse pelo melhor, o que não era tarefa fácil.

Afonso, porém, não estava feliz; depois de tanto se ter afadigado ao lado do Padrinho, o Visconde de Lagoa,  para que o palacete ficasse num brinquinho e digno de oferecer um lauto repasto a Suas Altezas reais, tinha ficado deveras decepcionado, ainda mais do que próprio, que em abono da verdade parecia ter ficado aliviado por, afinal, tal não suceder. É verdade que muita despesa fora feita, quer no arranjo e pintura de algumas paredes, quer na decoração da sala de jantar, mas muito teria que despender com o real banquete e o seu brio aristocrático não aguentaria se ocorresse algum deslize político ou, quem sabe, de etiqueta, menos conforme ao protocolo real.

O Visconde de Silves tinha-se-lhe adiantado no oferecimento, que ele só efectuara quando vira já tudo a meio e bem encaminhado, descrente como estava de não conseguir obter os materiais necessários a tempo e horas de tudo estar pronto.

Examinando a situação, era de prever a preferência, já que o Rei tinha concedido, a este último, o título nobiliárquico de Conde quatro meses antes da visita.

E os convites que teria de fazer e, sobretudo, a preocupação com os convites a não fazer, deixavam-no indeciso e inquieto, dado que os ventos de mudança tinham começado a soprar também no sul do país, embora de forma lenta, mas era dos representantes da monarquia e do país que se tratava agora e não era ocasião para divergências e muito menos para ressentimentos.

Podiam pelo menos respirar, pensava Afonso, tudo se tinha resolvido, apesar de ser de opinião de que o Padrinho se sentia um pouco vexado na sua dignidade aristocrática. Ou talvez estivesse enganado.

Talvez para camuflar a frustração de não ver a realeza sentada à mesa do Padrinho, que o educara quase como um filho, após o desaparecimento dos seus progenitores, vítimas de naufrágio quando regressavam de Lisboa onde se deslocaram ao serviço do Visconde, Afonso, na noite anterior tinha-se excedido um pouco na ingestão do vinho novo, excesso esse a que não estava habituado e o tinha deixado com algum torpor.

O galope de um alazão veio tirar Afonso deste estado de espírito, quando reconheceu no cavaleiro, o seu amigo Raimundo, filho de um parente e amigo do Visconde.

O próprio Visconde, passados tantos anos após a morte do seu antepassado que lhe legara o título ainda não o tinha visto reconhecido oficialmente e Afonso via neste “esquecimento” mais uma razão para se sentir desconfortável, como se isso o atingisse, a ele que não tinha o sangue do Padrinho, mas que era como se o tivesse: o que atingia o seu protector atingia-o a ele em dobro. Não sabia explicar, mas era isso que sentia, apesar de não estar muito certo da situação, uma vez que o Visconde não gostava de abordar o assunto.

Nessa manhã brumosa, o Visconde perguntara-lhe  se o queria acompanhar na comitiva da recepção real, que tinha previsto um passeio fluvial pelo Rio Arade até ao ilhéu do Rosário, mas que provavelmente não se realizaria dadas as condições atmosféricas que se apresentavam anunciadoras de uma tão desejada chuva que tanta falta fazia à agricultura, mas que era de todo inadequada ao momento real. Afonso tinha declinado o convite e tinha mesmo decidido ficar por ali a remoer a frustração, num estado de espírito que se coadunava perfeitamente com o cinza envolvente da neblina. Contudo, agora Raimundo vinha desinquietá-lo para irem ao encontro da comitiva régia, que encontrariam, por certo, à entrada de Estômbar, pois já passava da uma e meia da tarde.

Não fora o seu desânimo e teria tido o ensejo de observar o cortejo na travessia da ponte sobre o Rio Arade, que estaria pejado de barcos decorados e ouviria as entusiastas ovações da população, em alas ao longo de toda a ponte. Espectáculo único, irrepetível. E Ferragudo, profusamente enfeitado, a essa hora já teria recebido Suas Majestades sob o arco triunfal e ao som de uma banda musical, como estava anunciado no programa organizado pela comissão de recepção.

Afonso nunca sabia dizer que não ao seu companheiro de todas as aventuras e desventuras juvenis, que era, tal como ele, um garboso rapaz.

Meteram-se a caminho, sob um céu plúmbeo, que a curtos espaços parecia querer desabar.

Já perto de Estômbar avistaram ao longe a comitiva e posicionaram-se de modo a deixar o caminho livre e apreciarem, ao largo, a passagem da realeza e de todo o cortejo de figuras de destaque local, imprensa e até um acompanhante do Rei desde Lisboa, seu ajudante e oficial, um  capitão natural de Lagoa, de que a terra muito se orgulhava.

Afonso espraiou a vista sobre o cortejo e à passagem de uma das carruagens sentiu-se como que atravessado pelo relâmpago de um olhar, que pela rapidez com que o veículo circulava, não pôde seguir. Pensou para si se teria sido um relâmpago real a anunciar  trovoada ou  seria o efeito retardado dos vapores do álcool da véspera e logo desviou a atenção para observar a populaça, que seguia, desordenada,  numa natural euforia popular, lançando vivas entre arcos de verdura, disfarçando a pobreza por detrás das casas caiadas e ornamentadas com fotografias recortadas dos jornais, já bastante encharcadas, emolduradas com balões e folhagens.

À chegada a Lagoa, a chuva parecia ter desistido do seu intento e preferido colaborar nas boas vindas a Suas Altezas Reais; os rapazes prenderam os cavalos e quiseram seguir a comitiva a pé e, bem vestidos e de modos gentis, facilmente conseguiram, por deferência de quem os conhecia, ficar o mais perto possível do cortejo real, que se detivera no Largo dos Paços do Concelho, atapetado com  juncos e murta,  onde soava já o hino nacional e o povo simples, vindo dos campos para ver o Rei, entoava aclamações calorosas e entusiásticas.

Ora, duas meninas trajadas com lindos vestidos de organza, empunhando, cada uma, uma rosa, atravessaram o terreiro e uma delas, talvez por se ter apressado um pouco e não ter tido a devida precaução para não escorregar com os sapatos novos, de sola ainda muito lisa, escorregou e, por azar, foi cair numa poça de água, que os juncos disfarçavam traiçoeiramente e salpicou de lama o vestido, ainda há pouco tão imaculado, e perdeu a rosa que segurava.

Logo uma aia da Rainha, num impulso, se destacou do cortejo para acudir e consolar a pobre menina, que inconsolável, se foi por onde tinha vindo, chorosa e envergonhada.

Ambas as meninas teriam por missão dirigir algumas palavras de boas vindas à Rainha e cada uma entregar-lhe-ia uma flor.

Afonso observou aquela linda aia, de uma beleza que ele nunca vira, de longos cabelos fulvos e ondulantes, que contrastavam com a alvura da pele, tão perfeita como se de porcelana fosse.

Ainda tentou disfarçar a perturbação que aquela visão lhe causava e procurou refletir sobre que papel seria o da menina da rosa, que instituição ou entidade representaria e que um pequeno incidente não lhe tinha permitido levar a cabo a incumbência, que é como quem diz “levar a carta a Garcia”, mas logo o seu olhar não quis outro alvo que não fosse o que lhe causava uma atracção magnetizante.

Ainda assim, reparou que a aia contemplava a flor de que a menina se tinha esquecido, ao levantar-se tão envergonhada, pousada à beira do alegrete e, num ímpeto, dirigiu-se ao local e pegou na flor que depositou nas mãos seráficas de tão bela donzela, que espontaneamente se entreabriram para a receber, como se outro desígnio não tivessem.

Ao fazê-lo, os seus olhos cruzaram-se com os dela, uns belos olhos verdes, profundos, nos quais mergulhou, inebriado, enquanto se deslumbrava com o sorriso do seu olhar. E novamente se sentiu atordoado com o fulgor daquele relampejar, que agora percebia já ter sentido à passagem rápida da carruagem.

Com uma ligeira vénia, como se da realeza se tratasse, retirou-se, sem que todavia, o seu olhar se apartasse daquela visão, em cujas níveas mãos ele tinha deposto uma rosa duma beleza também surpreendente pelas  pétalas de veludo, da cor do néctar dos frutos dos vinhedos de Lagoa.

Amor perfeito…beleza ruiva ... rosa de veludo ... como de veludo lhe pareciam os seus lábios, pensamentos, palavras, sensações, que jorravam sem pedir licença.

De tal modo se tinha perdido em sonhos, que só um toque de Raimundo o trouxe à realidade e se deu conta de que o casal real e a comitiva se dirigiam já para a Igreja Matriz, não se lembrando  de  uma única palavra, quer de discurso do presidente nem mesmo de qualquer palavra régia, proferidas nos Paços do Concelho.

Os Reis para lá se encaminharam, acompanhados pelo Arcebispo-Bispo do Algarve e por todos os párocos do concelho. Afonso, apesar de não ser dado a rezas, daria tudo para lá entrar e postar-se, quase invisível, por detrás de uma coluna, implorando à padroeira Nossa Senhora da Luz, que o deixasse seguir cada gesto do que lhe parecia uma visão celestial, ou, quem sabe, demoníaca, já que o atraía assim, sem remédio.

O casal real e demais individualidades saindo sob um pálio, não fosse a chuva romper o contrato e fazer das suas, passaram pelo Mercado Municipal recentemente  inaugurado, que muito apreciaram e dirigiram-se para a Santa Casa da Misericórdia, em cuja Capela oraram depois de visitarem as enfermarias.

Nesse percurso, Afonso voltou a encontrar o deslumbrante olhar,  e desta vez, quiçá preces atendidas, a moça levou a rosa ao rosto e pareceu aspirar o seu perfume, enquanto o olhava profundamente como se o quisesse fixar para sempre. Pareceu-lhe uma promessa. Mais do que uma promessa “régia”, a certeza de um sonho.

Durante os trajectos pelas ruas floridas e engalanadas, paragens e cerimónias pelos locais emblemáticos da Vila, apesar de acompanhado pelo amigo, Afonso sentia-se noutra dimensão e só tinha olhos para a bela ruiva. Sentia que só por ela respirava, que o mundo era ela e só ela.

Aí, no Hospital da Misericórdia, enquanto uma menina oferecia uma flor à Rainha e lhe lia um pequeno discurso, Afonso contemplou a adorada, que lhe retribuiu. Os seus olhos pareciam dizer: estou livre e gosto de ti. Verdade ou equívoco por querer ver isso mesmo?

Imaginava-a já num esplendoroso dia de límpido céu azul, daqueles que prometem, logo ao cantar do galo, um maravilhoso raiar.

Como não podia deixar de ser, também o Recolhimento de S. José constava do programa prévio, onde a título de excepção, entraram  não eclesiásticos do sexo masculino e em cuja Capela houve mais um momento de oração.

Afonso pouco se importava se tivesse de percorrer as Igrejas e Capelas do concelho e fazer preces a todas as “Nossa Senhora”: Nossa Senhora da Encarnação, da Rocha ou outra qualquer,  conquanto o seu amor encontrasse eco no coração daquele ser tão belo e precioso, do qual almejava nunca se apartar, tanto mais que a palavra prece vinda do latim significa precious,-onis, formavam a consonância perfeita.

 A passagem real por Lagoa estava a chegar ao fim e o povo clamava Vivas cada vez mais entusiastas, correndo atrás das carruagens e abanando lenços brancos.

Por seu lado, Afonso não se dava conta de que poderia ser a última visão daquela que nas últimas horas modificara para todo o sempre a sua vida e via-se já, com ela, a cavalgarem ambos até à beira-mar e passearem de mãos dadas pelas macias e douradas areias da praia do Carvoeiro, ou da Azinhaga, onde o vento do norte é mais suave ao açoitar a longa túnica branca que transforma a amada num anjo sonhado.

A luz do verão tornaria a sua tez mais rosada; o mar estaria lá, mas  ignora se iriam reparar nele, a não ser que viesse beijar aqueles pés amados, como súbdito arrependido de ínfima ousadia, e conchinhas do mar viriam adorná-los, submissas.

E o cabelo, esvoaçante, seria mais brilhante do que o sol, incendiar-se-ia! E os fulvos reflexos nas águas, ninguém saberia dizer a quem pertenciam, se à mulher, se ao mar.

Que diriam? Tudo e nada.

Veriam pelo menos as gaivotas, ouviriam o seu piar?

Brincariam com as conchinhas de madrepérola até ao crepúsculo, entre arribas coloridas. Então, na escuridão tranquila, perfumariam a madrugada preguiçosa com o elixir dos seus corpos cansados.

A breve, mas intensa, passagem real pela Vila, estava prestes a terminar e todos subiram para as carruagens, debaixo de calorosos Vivas da população que aderira com tanto, e inesperado, regozijo. E foi a vez daquela indiscritível beldade deixar, para sempre, o torrão natal de Afonso, cujo jovem coração palpitava mais do que os dos corcéis que puxavam a carruagem, em dia de corridas.

Nesse preciso momento, por imperdoável distracção do cocheiro ou por motivo imprevisto, um dos cavalos pretendeu fazer uma falsa partida, o que provocou um pequeno desequilíbrio na aia da Rainha, que deixou escapar da sua linda mãozinha a flor que até aí segurara com tanto desvelo e estava agora desfeita sob o rodado da carruagem.

Afonso precipitou-se para a apanhar, mas era tarde demais e só viu o olhar dorido daquela mulher encantadora.

Aquela flor era o símbolo de um elo entre eles; nunca mais a veria e ela ... ela esquece-lo-ia, na certa.

Que infantilidade! assim pensou Afonso; sentir-se desalentado por causa de uma flor que logo murcharia ... e logo reconsiderou: não, não era por causa de uma flor, mas sim por causa d´Ela, da sua partida; a flor, essa, eu posso substituí-la!

E se assim pensou, logo lhe surgiu a visão das orquídeas que  um amigo do Visconde trouxera, de presente, há anos das Antilhas,  pelas quais o Padrinho tinha grande estima e mantinha resguardadas numa pequena estufa ao canto do jardim.  

Os Vivas iam já perdendo a força, à medida que a comitiva se afastava em direcção a Silves e levava a sua amada. Afonso nem ouvia o amigo que lhe dizia: que estás aí a fazer ainda e seguiu-o, como um autómato, enquanto ouvia  a voz do Padrinho quando lhe mostrava as preciosas flores: a de cor lilás simboliza a sedução, a vermelha o desejo sexual, a branca o amor puro, a amarela ..., dessa não se lembrava e a negra, essa que não tenho ainda, simboliza o poder, a autoridade.

_É isso, disse para o amigo, que não compreendeu e ficou a olhar aquele estranho comportamento, vendo-o correr o mais que podia até onde tinham deixado as montadas.

Afonso, sem esperar por Raimundo, montou a égua branca, encaminhou-se para casa e foi direito ao canto do jardim onde se localizava a abençoada estufa. Uma vez aí, colheu, impensadamente,  mas com todos os cuidados, uma orquídea lilás, uma vermelha e uma branca. Ao ver-se com tão poderosos símbolos entre mãos, caiu em si, ao imaginar qual seria a reacção do Visconde quando se visse desfalcado de tão preciosas flores e se alguma vez o perdoaria. Talvez o Padrinho ainda se lembrasse do amor e do que na juventude terá feito por ele e então ...perdoar-lhe-ia.

Assim pensando, montou a galope pela estrada de Silves, cruzando-se com a edilidade local que se despedira dos visitantes régios no sítio da Palmeirinha, onde terminava o concelho e seguiu no encalce da caravana, nesta altura muito aumentada em número de trens, pois que, por sua vez,  a edilidade e o Conde de Silves tinham ido esperar os Reis no limite do seu concelho e o cortejo tornava-se cada vez mais extenso. Mais próximo da cidade, do alto do Monte Branco, via-se o povo apinhado sobre a ponte, que alguns teimam em chamar romana, em alas até ao Palacete do Conde, onde o casal régio entrou, sob Vivas calorosas e esfusiantes.

Em seguida, o anfitrião levou-os a visitar a sua Fábrica de Cortiça e posteriormente  foram encaminhados para a Sé e para a Misericórdia, no meio de uma grande animação, com vistosas iluminações e balões venezianos a enfeitar as ruas.

Aí, e apesar da multidão, Afonso deu-se conta de que a Rainha não se fizera acompanhar da aia nestes percursos, sentindo frustrada a sua intenção de lograr um expediente que lhe permitisse entregar as orquídeas, e mais do que isso, o que elas representavam de sentimentos.

O sol outonal, que naquela tarde de Outubro pouco se tinha mostrado, já declinara há muito por detrás do histórico castelo, esquecido e desmoronado e, antes que os visitantes régios regressassem ao palacete para o banquete, foi para lá que Afonso se dirigiu, em busca de notícias da senhora do seu coração, enquanto cogitava se seria francesa ou inglesa – portuguesa certamente que não . Não que isso fosse importante, mas por vezes a linguagem é necessária para evitar equívocos; quando não os cria, admitiu também.

Quando chegou ao Palacete do Conde e se lhe deparou a altura propícia, persuadiu um criado de libré que estava no exterior a aproximar-se, e este, à vista de uma moeda de prata, referiu que a bela aia se tinha recolhido à chegada, por se encontrar em estado de extremo cansaço e a sua presença no cortejo fora dispensada por D. Amélia.

Afonso disse-lhe, então, que fosse, de imediato, entregar-lhe em mãos, aquelas preciosas orquídeas, com a seguinte mensagem: Rosa Vermelha.

O criado assentiu, sem compreender; ela compreenderia.

Quem não se arrisca a um fracasso nunca chega a uma vitória, mas Afonso não podia simplesmente pisar o portal de uma casa para onde não fora convidado e arriscar-se a ser visto por outros criados a entrar no quarto da aia; seria a perdição de ambos.

Contra a entrega da moeda de prata e à vista de uma outra, o  criado mencionou a localização de determinado quarto, cuja janela dava para um jardim interior, rodeado por uma sebe. Uma sebe nunca fora para ele um obstáculo e já tinha enfrentado, com êxito, outras mais altas e mais densas.

Se bem o pensou, melhor o fez e aí se manteve embrenhado, com o olhar fixo na janela que, para si,  continha um cosmos, até ao momento em que lhe pareceu que uma bela silhueta se aproximava da dita e a entreabria, de mansinho, voltando a desaparecer na obscuridade.

Com a audácia e a agilidade da sua juventude, Afonso atingiu o soalho do quarto, que rangeu, com subtileza, debaixo dos seus pés.

Os Reis tinham regressado da sua itinerância pela cidade e soava já um reboliço surdo da criadagem a transportar as travessas e servir o opíparo banquete de trinta e seis convivas, em que a frágil aia estava dispensada pela Rainha de lhe proporcionar qualquer apoio, dado se encontrar demasiado fatigada.

E isso que importava?

Despida e ofegante, qual deusa que se permite descer até junto ao comum dos mortais para com eles gozar o que dizem ser as delícias terrestres, ali estava a sua deusa encarnada.

Depois ... depois ... possessos e sem saberem de que poção, transpõem o limite da fronteira em que todos os anseios se materializam na concretização, após o que apenas subsiste uma vaga incerteza entre a realidade e o sonho.

Com a mesma prudência que usaria um ladrão, a pesada  porta range, apenas de leve, nos gonzos entorpecidos, enquanto Afonso se encontra ainda no difuso limiar da semi-vigília para a vigília.

A sua amada sobressalta-se um pouco, ergue-se, com lassidão, dirige-se para a porta, como se flutuasse, que se abriu de mansinho e ouve-a pronunciar, num sussurro:

 _Já não vos esperava, Meu Senhor! Agora ide-Vos!  Peço-Vos! Estou muito cansada ...

 

 

 

 

 

 

 

 

***

 

_O Rei! O Rei D. Carlos! _ balbucia Afonso, enquanto esfrega os olhos e se levanta, assarapantado.

_ A sonhar com o penúltimo rei de Portugal, Afonso?! É o resultado de passares  dia e noite embrenhado nesses livros de História e de histórias ...  adormeces no sofá ... e sonhas com reis.

_Uff! Ainda bem que acordei!, exclama meio estremunhado.

_Se sonhasses com a rainha D. Amélia talvez acordasses com melhor cara ... Dizem é que era uma mulher grande ...

_E também uma grande mulher. Para o entendermos melhor só temos que conhecer a sua história, que é também a nossa e de mais dois países: França e Inglaterra.

_Não duvido ... Olha, o Raimundo está no jardim à tua espera; ofereci-lhe um café. Diz que quer rever contigo os tópicos da Conferência desta tarde, sobre ...sobre ...

_”O passado e o presente sempre ligados, rumo ao futuro”.

_Isso mesmo! ... rumo ao futuro!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota final: Alguns factos históricos foram extraídos da publicação do Arquivo Municipal de Lagoa, “Visita Real ao Algarve (1897)”.

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 4 de maio de 2021

 Onde estás, tu, LIBERDADE?


Liberdade, onde te escondeste?

Amedrontaste-te com um mísero vírus?

Tu? A maior? Aquela que todos estimamos? 

Não, não te atreverias a tanto, 

Como uma pobre imbecil se esconde duma barata. 


Nós, humanos, tínhamos medo. 

É coisa humana …, mas tu, Liberdade

Envergonhas a humanidade que acredita em ti.


Sai Liberdade! Em liberdade! 

Queremos-te! 

Como sempre te quisemos 

De braços abertos

Sem cotoveladas 

Sem medo 

Agora! 

Já! 



Janeiro 2021


quinta-feira, 15 de abril de 2021

 JANTAR DE NATAL

O jantar de Natal aparentava-se mais com a primeira refeição em família após o enterro de parente próximo do que a comemoração do nascimento do filho do Criador.
O silêncio escorreria, plúmbeo, pelos rostos pálidos, estendia-se sobre a mesa e esculpia os espaços dos ausentes. Mastigando, devagar e enfados, escutavam ainda o eco da voz daqueles que no Natal anterior se tinham sentado àquela mesa, rido, contado histórias e saboreado com deleite cada nova iguaria que ia surgindo, cada vez que alguém aspirava o perfume exalante das terrinas.
Quase não se permitiam fazer qualquer gesto que fizesse tinir os talheres que, muito sorrateiros, afloravam o prato. Os copos eram coniventes com os talheres e com o silêncio e não se atreviam a provocar a habitual vibração em data festiva. As palavras tinham-se ausentado, fatigadas. Um talher, estremecendo, caiu ao chão como um trovão que ninguém se atreveu a escutar. Frustrado na sua tentativa, regressou à mesa, escutando o silêncio ameaçador que já escorria pelos quadros encaixilhados. A canja parecia ter azedado, o peru emagrecido, as filhoses mirrado e o vinho, esse, entornado. Vinho entornado! Sinal de alegria ali tão descabido! Já reinaste, vinho, noutros Natais, aniversários, Páscoa e que mais. Hoje não é o teu dia. O Natal aqui não esteve. Foi aí que o Paulo deitou ao chão o copo já despido de silêncio. Peço desculpa, o Natal não vem jantar. Talvez o encontremos na sala de estar. Vamos lá, então!

2016.11.12

segunda-feira, 12 de abril de 2021


LUISINHA APRENDE UMA HISTÓRIA

Luisinha tinha três anos, alegres e descuidados, e muitos livros de histórias que lhe iam oferecendo para ler quando chegasse a altura. Mas Luisinha gostava de fingir que sabia ler e andava sempre com os livros.
Numa tarde risonha e ensolarada, a mãe teve que sair precipitadamente após um telefonema inesperado e deixou-a, pela primeira vez, aos cuidados do irmão, um endiabrado rapazito de dez anos, assegurando que não iria demorar.
Assim que a mãe saiu, Luisinha escondeu-se atrás duma porta, como fazia às vezes a jogar às escondidas; desta vez tinha um livro de histórias na mão:” A Bela Adormecida”.
O irmão foi até à cozinha fazer um lanche porque estivesse com fome ou simplesmente como forma de entreter a pequena, que era muito glutona, antes que começasse a fazer diabruras na ausência da mãe. Quando foi buscar a irmã que julgava entretida com o livro, abriu a porta que separava as divisões com tanta velocidade que aquela embateu na cabeça de Luisinha que caiu com a pancada e por momentos desmaiou, sem largar o livro.
O rapaz, muito aflito, agarrou a menina e colocou-a no sofá, onde recuperou os sentidos quase de imediato, para grande alívio do irmão, e logo que despertou abriu o livro e contou-lhe toda a história, mas como se fosse a própria a vivenciá-la.
O irmão ficou um pouco admirado com a desenvoltura da pequena, mas pensou que a mãe lhe tivesse contado a história como se fosse ela mesma, Luisinha, A Bela Adormecida, e não pensou mais no assunto, aliviado pela chegada da mãe, que acabou por compor o lanche e todos se sentaram à mesa.
A menina, que ficara muito entusiasmada com a reacção do irmão, contou novamente a história à mãe como se fosse ela a protagonista. A mãe ficou muito contente com o filho por ter sabido cuidar tão bem da irmã na sua curta ausência e ainda ter-lhe contado aquela história duma maneira tão incrível que a menina além de a ter aprendido tão depressa ainda conseguia contá-la na primeira pessoa, coisa inaudita.
O rapaz logo se deu conta de que ali havia coisa e sentiu não merecer os elogios, mas não podia dizer que não o tinha feito e o que pensara da primeira vez que ouvira a irmã: teria que contar que, sem querer, lhe tinha batido com a porta na cabeça, que estava agarrada ao livro quando isso aconteceu, que desmaiou logo voltando a si e da maneira como lhe contara a história.
Preferiu guardar para si aquele acontecimento inacreditável, em que a mãe não iria mesmo acreditar e ainda ficaria preocupada com o desmaio e zangada com ele, por não ter tido mais cuidado.
Daí em diante, por vezes pensava repetir a façanha com um outro livro, mas não encontrava nenhum adequado. “Os três porquinhos”, “O patinho feio”, “O Pequeno Príncipe” poderiam causar alguma confusão, quanto a “Branca de Neve e os sete anões”, embora mais adequado, tinha muita gente e entrava uma bruxa malvada, de que não gostava, além de que não tinha coragem para dar propositadamente uma pancada forte na cabeça da irmãzinha; ainda tinha bem presente o susto que apanhara ao vê-la desmaiada. Livra! Felizmente, para ele, que fora coisa passageira, senão nem sabia como é que a sua vida estaria agora. Já para não pensar na da mãe e da irmã.
Depois desse episódio, por vezes a mãe pedia-lhe para contar histórias à pequerrucha, já que tinha obtido um tal sucesso num espaço de tempo tão curto, mas ele arranjava sempre artes de se esquivar, sabendo de antemão que o que acontecera fora algo irrepetível e inexplicável. Pelo menos ele não faria nada para que se repetisse. A acontecer, que não fosse ele o motor de desencadeamento do fenómeno.
Há coisas que não entendemos. Inexplicáveis.

sexta-feira, 12 de março de 2021



POEMA MEU

Já não tenho coração
E o intelecto onde está?
Os dois juntinhos dariam um génio
Ou não?

Já não sinto a emoção
Nem o apelo dum amor
Falta-me o desejo de um canto
Dos acordes harmoniosos

Porém, quero sentir harmonia
Como? Sem emoção
Sem amor, sem desejo
Sem música no coração!

Já não sou!
Bocage o disse também
Mas... será que alguma coisa fui?
Ou apenas sou o que sou!


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Uma vida (quase) tão perdida que mais parece nem ter tido início, não fora os azedumes que vai deixando como lastro.

Dá voltas e voltas para encontrar a vida e, decididamente devem ser realmente voltas sobre voltas e daí ver-se sempre no mesmo sítio cada vez mais estgnado, amorfo.

Está farta de saber que não tem que ter medo do medo. Que tem que fazer uma escolha e daí partir para a vida. Não tem coragem? Não, não é só falta de coragem, é mais falta de farol, de modelo. Não sabe decidir, não decide. Fica. Vai ficando, até que um dia fica de todo.



Frequenta cursos ... formações ... Para quê? Não sabe. Diz que é apenas para conhecer. Que um dia verá se lhe interessam. Um dia? Quando? Que vida pensa ela que tem pela frente?



2008? 2011? sei lá


Vários poemas, vários temas


Não sei se tinhas muitas flores;
Tinhas, certamente, muitas
Não quis olhar
Não quis saber do teu fim

Não vi a cor do teu caixão
Estava lá, seguramente,
Um corpo que já ninguém reconhecia
Como sendo teu

Espero que estejas bem agora.
Que te reconcilies com a vida que deixaste

**************

Vês Um coxo
E choras
Vês um cego
E choras
Vês um paralítico
E choras
Vês um louco
E choras

Não é por eles
Que choras

Choras por ti


*********

Não lamentes quem em momento de dor, chorar
Lamenta quem no meio da dor estiver a rir
Quem chora na dor, vive
Quem ri na dor, está a retardar o momento 
Como quem paga uma dívida com juros

********

Em frente à varanda da minha casa
Há um telhado com beiral
Onde pardais e andorinhas
Vêm tagarelar

De telhas outrora vermelhas
Agora marcadas pelo tempo
São verdes, são amarelas
Verdadeiras atracções
Para os pássaros debicarem

******

Com tantos doces, tantos fritos
Tanta bebida licorosa
Vão parar ao hospital
E dizem que foi do natal

******
Mulheres de meia-idade
60, 70, 80 anos
Arrastando a idade
E as peles
E a cor ruiva dos cabelos
Saem da praia
Exibindo a gordura balofa
Das coxas
As veias azuis, violeta
Salientes

Visão que magoa
Nudez que apregoa

 

A SEREIA E O FONTANÁRIO

 

Era uma vez uma Sereia duma incomparável beleza e ainda mais deslumbrante quando o seu vestido de folhos multicores se submetia à intensidade dos raios de sol sempre brincalhões, mas atentos a tanta formosura, de tal modo que a traiçoeira claridade dos dias remetia a mente dos humanos que a avistassem para estranhos mundos impossíveis.

Olhar humano que a vislumbrasse, logo ficaria tomado por uma perigosa loucura: a mais turbulenta e periculosa do mundo, o amor.

Por causa da sua beleza sem par, quando a linda Sereia nasceu, a Bruxa Má que sempre ronda, maldosamente, as novas e prometedoras vidas, tivera tanta, tanta inveja de tamanha perfeição que lhe rogara uma torpe e pesada praga: que a Bela Sereiazinha fosse acometida por uma vergonhosa peçonha chamada preguiça, o que equivalia a uma vida sem graça nem sentido.

Valeu-lhe uma boa e velha Fada Madrinha, que em tempos tinha amadrinhado as suas irmãs e que transmitiu a seus pais o contraveneno que permitiria atenuar os efeitos da nefasta praga:

teria que viver sempre a cantar e banhar-se em água doce pelo menos uma vez por dia.

Ora como é sabido, no mar não há água doce; o mar é salgado. Os pais incentivavam-na a cantar todo o dia já que fora prendada com garganta de prata, donde emergiam melodias ora doces ora arrebatadoras, conforme o que lhe sucedia e, se não fosse essa bênção a pequena Sereia viveria como uma alga, de tanta preguiça de que era acometida.

Viviam os pais consternados e, em noites de lua cheia, dirigiam-se a Terra, em busca de água doce, onde mergulhavam a pequenina para que tivesse uma infância adequada a uma criança, com as suas diabruras.

O tempo passava, célere e, numa noite bem estrelada, a Sereia, já querendo quebrar os laços paternais, partiu para Terra em busca de água doce e fresca e deparou-se com um Fontanário de cujas mãos jorrava água fresca e pura.

A Sereia ficou fascinada pela beleza, frescura e dádiva do Fontanário e usufruiu das águas jorrantes, voluptuosa e demoradamente. O fascínio daquela maravilhosa aparição foi de tal modo magnetizante que, por segundos, reteve as águas em ambas as mãos, logo as desprendendo ainda mais copiosamente, alternando-as com doçura e suavidade, como que a adivinhar os desejos da Sereia.

A magia foi imediata e mútua.

Ao romper do alvor, a Sereia ergueu-se das águas, beijou as mãos do Fontanário e encaminhou-se para o oculto universo daqueles seres.

O velho fontanário, enegrecido pelo tempo, sentiu-se revigorar e naquele dia todos os que por ali costumavam passar e já nem reparavam nele, olhavam agora, com surpresa, a brancura e o rejuvenescimento do mármore brilhante, bem polido

Todas as noites o canto da Sereia pairava por entre o arvoredo que cercava o jardim onde decorria este idílico enlevo e conta-se que quem por ali passasse e a ouvisse ficaria imbuído dum amor daqueles que descontrola a vida dos que o sentem e que não podem mais ser-lhe indiferentes.

Até que uma noite houve uma tempestade medonha e o mar revoltoso, quiçá ciumento, impediu que a bela Sereia se fosse banhar na água doce do Fontanário.

Este, sabedor da maldição que pesava sobre a Sereia, ao ouvir o seu canto lamentoso não esteve com delongas e, já noite dentro, através duma tempestade tenebrosa, dirigiu-se ao mar, ao encontro daquela que as ondas alterosas retinham.

Conta-se que a tempestade foi tão violenta que arrastou o Fontanário para os penhascos junto ao mar, onde a partir de então surgiram na maré baixa Olhos de Água doce, os olheiros onde a Sereia se poderia banhar e cantar, livrando-se assim, para sempre, da terrível e estéril preguiça.

Conta-se ainda que, em noites estreladas ou de luar, os pescadores avisados, evitam passar por ali, não por receio de serem levados pela sereia, mas o de serem arrebatados por um grande amor, que lhes desgoverne mais a vida do que o barco não obedecer ao leme.

Um grande amor não é para os timoratos, mas tão só para os destemidos.

 

 

 

 

sábado, 6 de março de 2021

 Acordei cinzentona

Acordei cinzentona
Tal lobo solitário 
De dentuça arreganhada
Mas sem forças para uivar
Vencido e dormente
Às portas do povoado
Um chamado  tenebroso
Estranho e gélido guardião
De patas trémulas
Acuado
Sem uivo
Sem matilha
Retorna ao silvado
Sozinho no trilho
Sem lugar para chegar
Sem rumo nem ilusão
Vagueia, sem pressa
Velha pelagem
De cão abandonado
Corpo abatido 
Cicatrizes de caçadas 
Açoitado pelo vento
Que ecoa no silêncio
Em busca da lua
Amor impossível
Sem opção
Como um renegado
Que não arrisca
E passa da essência à demência

Mas eis que o sol brilha
Por qualquer motivo fútil
Do cinza me libertei

Admirei a luz
Pareceu-me o paraíso
E parti para mais um dia de labor
Devorada pela manhã
Exorcizando fantasmas aguerridos 
E conquistando a aurora